O Instituto Santa Terezinha

EDUCAÇÃO

 

Clemente Shwartz*

INSTITUTO SANTA TERESINHA - TRADIÇÃO E MODERNIDADE NO ENSINO

 

O Instituto Santa Teresinha (IST) , idealizado e concretizado por Dom Eliseu Maria Coroli, foi fundado em 23 de novembro de 1938. O IST teve sua primeira fase marcada pela chegada das Irmãs do Preciosíssimo Sangue em Bragança. As religiosas vieram de Monza (Itália), a convite de Dom Eliseu, para ajudá-lo na implantação e direção da escola, como também na formação de professoras catequistas e na evangelização.

 

MISSIONÁRIAS - O segundo momento pode ser considerado com o surgimento da Congregação das Missionárias de Santa Teresinha fundada por Dom Eliseu, em co-autoria com a irmã Edith de Almeida e Sousa, considerada pelo bispo sua primeira filha espiritual. Capacitadas, muitas dessas missionárias se tornaram professoras do IST, contribuindo de forma muito significativa para a evolução do colégio.

 

NA HISTÓRIA – Irmã Edith, além de estar à frente nas salas de aula desde os primeiros anos do IST, liderava um grupo de professoras catequistas, alfabetizando e evangelizando nos interiores. Nessas missões, irmã Edith também atendia na área da saúde, por ser enfermeira formada pela Escola de Enfermagem Ana Nery do Rio de Janeiro. Posteriormente, ela, que era co-fundadora e já coordenava a Congregação das Missionárias de Santa Teresinha, tornou-se diretora do IST.

 

INTERNATO - Nas primeiras décadas, o Colégio funcionou também em regime de internato, abrigando alunos e alunas de diversos Iugares. Nesse mesmo momento, em uma ala isolada do colégio, havia ainda o noviciado, onde se formavam as freiras Missionárias de Santa Teresinha.

 

TIJOLO POR TIJOLO - Para que o prédio acomodasse tanta gente e atendesse a grande demanda de alunos externos, foi necessário interditar a rua Aureliano Coelho, unindo as duas quadras, para aumentar ainda mais o Instituto. Aliás, desde 1939 até a década de 70, quando foi concluído o anexo- onde atualmente funcionam as salas de aula- o IST viveu ininterrupto processo de edificação. Não era para menos. Além do capricho com que foi construída área de tamanha extensão, havia ainda o desafio de equipar um colégio com recursos que ultrapassassem os limites das salas de aula. Isso tudo com pouco dinheiro e numa época em que jamais se falava em prática de atividades multidisciplinares.

 

VALEU A PENA - No entanto, graças a tenacidade “eliseana”, Bragança não só foi a terceira cidade do Estado com curso Normal - a primeira foi Belém e a segunda, Santarém- mas passou a dispor de um colégio com quadra de esportes, laboratório de ciências, biblioteca, sala de projeção de filmes, capela, livraria e um auditório que durante muitas décadas serviu de palco para grandes apresentações de teatro e música produzidas em Bragança. No auditório do Santa Teresinha foram apresentadas diversas operetas e peças populares montadas pelos próprios alunos; festivais de música e poesia organizados pelo saudoso poeta Jorge Ramos, advogado e professor do IST; além de shows musicais com performances de alunos e ex-alunos. Pouca gente sabe, mas o cantor e compositor bragantino Junior Soares, do Arraial do Pavulagem, apresentou-se pela primeira vez em um palco, no auditório do colégio, em meados dos anos 70 quando fazia o curso ginasial no IST. Também faziam parte do movimento musical os irmãos Pedro Paulo e Antônio Carlos Scerni, Bibio, Stélio Risuenho; Paulo Afonso Alcântara e seu coral, Esther Nonato Aranha, dentre outros talentos caeteuaras. Naquela década, as noites culturais lotavam o auditório.

 

TOMADO PELO EXÉRCITO - Um assunto da história do IST que pouca gente conhece é a instalação provisória

do Exército no prédio ainda em construção, no mês de novembro de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial: Como o Exército precisava de uma instalação com urgência em Bragança, o comandante da 8a Região Militar do Estado à época e Augusto Corrêa, então prefeito municipal decidiram em comum acordo que o prédio do colégio seria o local ideal. Sem outra opção, Dom Eliseu desocupou o prédio inacabado, entregando ao Exército, após fechar uma indenização que incluía o compromisso concluir a obra, como foi feito. Durante a ocupação militar, as aulas voltaram a ser realizadas no mesmo local do primeiro ano letivo do colégio.

Entretanto, depois de diversas e frustradas investidas na tentativa reaver o prédio, Dom Eliseu tirou o último ás da manga e deu sua cartada de mestre, acionando uma amiga de longa data: Ivete Vargas, filha do então presidente da República, Getúlio Vargas. Ele havia sido professor da jovem no ano em que chegou ao Brasil, quando lecionava na Escola de Cadetes do Rio de Janeiro. “Ele (Dom Eliseu) contou o problema que estava enfrentando a ela, sugerindo que intercedesse junto ao seu pai. O presidente acatou o argumento da filha e o colégio devolvido a prelazia, voltando a funcionar como antes.

Com uma brilhante trajetória, o Instituto Santa Teresinha (IST) chega aos 75 anos oferecendo formação completa de qualidade, da Educação Infantil ao Nível Médio, além de cursinho pré-vestibular. Sem perder jamais a tradição, o Instituto mantem-se atualizado para atender as exigências estabelecidas para o bom aprendizado. Além da equipe técnica pedagógica, a instituição dispõe de psicólogo a disposição dos alunos.

 

CONTEMPORANEO - A adequação aos tempos faz parte do compromisso de despertar no aluno o interesse pelo conhecimento. Para interagir fluentemente com as diversas gerações, atendendo a realidade de cada época, o IST passou por transformações que pontuaram sua história. Além das adaptações metodológicas e comportamentais, há fatos que marcam os vários momentos da instituição.

O processo evolutivo do IST pode ser observado, por exemplo, pela mudança dos uniformes. Para quem começou com o formalíssimo modelo típico das normalistas da época; pode-se considerar como grande testemunho desse avanço o atual uniforme, adotado desde a década de 80: camisa de malha de algodão, calça jeans e tênis.

 

EDUCAR PARA A VIDA - “Nossos alunos serão nossos verdadeiros filhos; a eles todos os nossos cuidados e educação paternal; sacrificaremos a nos mesmos pelo bem intelectual, moral, social, espiritual e eternos de nossos alunos”, são frases do compromisso  que Dom Eliseu fez em seu prórpio nome, dos padres e das freiras, na hora solene da Eucaristia de abertura do 1 ano letivo do IST, em 15/02/1939. A oratória transcorre sobre a filosofia atribuída pelo fundador da instituição: “Educar para a vida”.

Curiosamente, essa frase tornou-se lugar-comum às vésperas da virada do século XX e, até hoje, é assunto nas mesas redondas, simpósios e também nas conversas informais de educadores. No entanto, foi proposta por Dom Eliseu, ainda na terceira década do século passado. “Ele (Dom Eliseu) sempre falou de uma educação que não se restringisse as disciplinas de sala de aula, da mera instrução acerca do conteúdo programático escolar, mas principalmente sobre o estímulo a descoberta de cada um de nós acerca de nós mesmos, para então buscarmos uma evolução também no campo pessoal e espiritual, explicou irmã Ascenção. A diretora contou que Dom Eliseu argumentava que a vida não é feita somente de aspectos do campo intelectual. Hoje, quando a Pedagogia também indica essa filosofia em todo o mundo, confirmamos que Dom Eliseu sempre pensou muito a frente de seu tempo. Vislumbrar esse ponto de vista holístico, tão importante para a educação, com tamanha convicção em tempos tão desprovidos dessa ética globalizada, é um grande pioneirismo. Ele era um visionário”, avaliou diretora do IST, Irma Ascenção Lemos, completou a explanação sobre o espírito vanguardista do bispo, citando a implantação da Rádio Educadora de Bragança, como outro recurso para promover educação na região, com aulas a distância. “Somente neste século as aulas não-presenciais tornam-ser comuns. No entanto, como parte mesmo ideal, Dom Eliseu disponibilizou essa linguagem para Bragança mais de quatro décadas, através da Educadora, que promove este serviço até hoje “, assinalou irmã Ascenção.

 

MODERNIZAÇÃO - Como complemento o IST também dispõe de laboratório de processamento de dados e biblioteca informatizada. Além das atividades normativas e de boas instalações, as estratégias utilizadas pela instituição para incrementar a saborosa descoberta do saber incluem ainda: feiras pedagógicas e científicas, além de programações culturais, cívicas e desportivas. “A aplicação das disciplinas correlacionadas com o dia-a-dia do aluno aproxima-o do assunto e faz com que ele confira a teoria na prática. Assim a gente aprende e não esquece”, observou irmã Ascenção, diretora geral do Instituto Santa Teresinha.

 

TURISMO - O prédio do Santa Teresinha, em composição com a Praça das Bandeiras, é um cartão-postal em Bragança. Uma referência da cidade que não escapa mesmo aqueles que passam por Bragança apressados para chegar em Ajuruteua, uma vez que a construção, que salta aos olhos de qualquer desatento, fica no caminho quase obrigatório para se chegar à praia.

A beleza arquitetônica da fachada é apenas um item a ser apreciado. A nostalgia em cada compartimento é latente no interior do prédio. Percorrer os enormes corredores adornados por imensos vasos com plantas e adentrar os cômodos do Santa Teresinha é uma viagem ao passado, independente de se ter vivido por ali ou não. O pé-direito cerca de cinco metros de altura, o mobiliário antigo, os quadros de formaturas de normalistas, aliados as imensas varandas que dão para o pátio interno, fazem do colégio de freiras uma locação perfeita para uma produção cinematográfica de época.

Neste cenário fantástico, até onde se pisa também é uma riqueza. O chão do prédio original do colégio é inteiramente revestido por ladriIhos hidráulicos lindíssimos, com estamparias variadas, sendo cada motivo minuciosamente escolhido, de acordo com a função e dimensão de cada compartimento. Coisa fina, requintada mesmo. As peças foram todas produzidas em Bragança na fábrica dos padres, que a época da construção do IST também montaram uma olaria, onde foram feitos os tijolos utilizados nas paredes do colégio.

 

RELICÁRIO - 0 quarto de Dom Eliseu é uma atração a parte. Em fase de arrumação para ser transformado museu, o aposento e o que há de mais simples em meio a tanta área construída.

Tendo na entrada um hall onde ficam uma cômoda, um armário muito modesto e um móvel onde o bispo se ajoelhava, no compartimento principal, o quarto comporta ainda uma cama de solteiro e um pequeno guarda-roupas, onde estão arrumadas as batinas que o bispo usava. “Ele precisava de pouquíssima coisa para viver. Só tinha o essencial e, como se vê, tudo aqui é muito simples”, disse a irmã Marilda, responsável pelos aposentos do fundador do colégio, apontando para o mobiliário.

A antiga capela foi desativada e passou a funcionar em outro compartimento. A mudança deu-se devido ao espaço estar ligado ao quarto de Dom Eliseu e ser o local ideal para ser transformado no memorial do bispo em processo de canonização.

 

NA MESMA PRAÇA- Apesar dos avanços conquistados em 70 anos, nenhuma tecnologia adotada pela instituição fez com que detalhes peculiares fossem desbancados- aliás, exemplo a ser seguido por cada instituição e cidadão que preze o seu passado. A preservação da enorme área de recreação com jardinagem e árvores de grande porte e a incansável veneração a Virgem Maria durante o mês de maio são dois exemplos que diferenciam o Santa Teresinha da grande maioria das instituições de ensino. O toque da mesma campa utilizada desde a fundação do colégio é outra peculiaridade: uma trilha sonora inesquecível para os que ali estudaram.

 

* Clemente Shwartz é jornalista e ex-aluno do Instituto Santa Teresinha.

 

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