ENSAIO

Mariana Bordallo

SARUBBI

MEMÓRIAS AFETIVAS E ORIGENS CULTURAIS 

 

 

Valdir Evandro Sarubbi de Medeiros (1939-2000), pintor, desenhista, gravador e Arte Educador, assim como sua prima Maria Lúcia Medeiros, escritora paraense, nasceu na mesma pequena cidade do interior do Pará com um trem de ferro e um rio na frente e, como ela, teve uma infância bem brasileira: quintal, primos, frutas, tios, igreja, cinema Olympia . Ambos conviveram bem de perto com a casa identificada em Bragança como Casarão da Família Medeiros - com azulejos portugueses, desenhos perfeitamente simétricos nas ripas do telhado e nas tábuas do assoalho, com uma mãe d’água no poço do quintal e o sentar-se à porta no fim da tarde para longas conversas, hábito que remontavam aos tempos de seus avós.

Nasci em uma pequena cidade do interior da Amazônia, onde convivi com rios, animais, florestas e costumes indígenas de uma Amazônia intocada, que deixaram em mim conteúdos afetivos que seriam importantes para minha expressão artística anos depois... (Sarubbi in BITAR; 2002; p.19).

Sarubbi foi criança em uma Bragança da década de 40. As moças que vinham dos interiores para trabalhar nas casas de família, os trabalhadores das roças, das fazendas e dos sítios, conviviam com as famílias, com as crianças e traziam suas crenças e práticas culturais, além de muitas histórias para contar. Em 1945, Sarubbi deixou o sítio do Lontra e foi morar com as tias Sabasinha e Didi, irmãs de seu pai, e por toda vida, ele ressaltou a ligação que tinha especialmente com a tia Sabasinha.

A tia Sabasinha  gostava de contar as histórias da família aos sobrinhos e a quem mais as visitasse no Casarão com um horror de janelas e um quintal e tanto (CELINA, 1963, p. 09). Seu pai Simpliciano Fernandes de Medeiros havia sido Major da Guarda Nacional e era Intendente de Bragança na inauguração da Estrada de Ferro em 1908. A vida da família Fernandes de Medeiros e a vida da cidade estava enredada, isso não só era motivo de orgulho, mas, principalmente, motivo para muitas histórias que a tia Sabasinha gostava de contar. Ela foi uma personalidade marcante na vida do artista, com o seu carinho e com suas histórias fez a ligação entre o passado, os avós e a família e o presente na vida de Sarubbi.

Enquanto vivia na casa das tia, ele ouviu muitas dessas histórias contadas depois do almoço, sentado na calçada de tarde, depois do jantar ou mesmo numa conversa do dia-a-dia. Até porque, as pessoas acreditavam nelas (e até hoje, muitas ainda acreditam). Em Bragança Valdir viveu a realidade dos igarapés, da mãe-d’água que puxa para o fundo das águas e da Matinta Pereira que pede tabaco e leva as crianças que saem à rua nas horas soturnas. Ele ouviu histórias de pessoas que foram assombradas por visagens e as que ficaram perdidas na mata por ação da curupira (em Bragança, apesar de curupira ser um menino com os pés para trás,  talvez por associação com a mãe-do-mato, ou com a Matinta Pereira, Curupira é chamada de “a” curupira). Ouviu relatos de pessoas que juravam ter visto ou que foram perseguidas pela cobra-grande que, em Bragança e arredores é bem provável que tenham existido nos poções dos igarapés. Viveu sob a influência de um rio que regula a vida da cidade, o rio Caeté, além da exuberância da paisagem amazônica que qualquer viagem de barco para as inúmeras praias da região pode oferecer. Ele participou dos festejos de São Benedito nos finais de ano e a Marujada era parte integrante de seu “ser bragantino”, como ainda hoje o é aos que vivem em Bragança.

Em Bragança Sarubbi, irmãos, primos e amigos, fundaram a Associação Cultural Recreativa dos Estudantes de Bragança – ACREB, aproximadamente em 1955, entidade que teve uma participação ativa na vida social e cultural da cidade até meados da década de sessenta. No período das férias escolares, a ACREB promovia teatro, shows com artistas locais, artistas de Belém e nacionais: Guiães de Barros, Alberto Mota e Luiz Gonzaga. Lúcio Mauro chegou a se apresentar em Bragança declamando o famoso monólogo “As Mãos de Eurídice” . Além do time de futebol e mesas de ping pong na sede da ACREB, no mês de julho, havia a exposição-feira de trabalhos manuais. Cada associado fazia um trabalho pra vender na exposição. Era uma forma de arrecadar dinheiro para realizar as festas dos finais de semana, onde toda uma geração se encontrava pra namorar, flertar e de onde saíram muitos casamentos. Nessa fase, Valdir alternava com o irmão José Benedito a presidência da Associação.

Em 1958, surgiu a Campanha Nacional de Defesa do Folclore , convocando todos a se empenharem na valorização das tradições ameaçadas de desaparecimento pela modernização acelerada. A Comissão Paraense de Folclore, cujo secretário-geral era o bragantino, dr. Armando Bordallo da Silva, em consonância com a campanha nacional, organizou a I Jornada Paraense de Folclore  em Bragança, bem no período da Festa de São Benedito e da Marujada: 22 a 27 de dezembro. Equipes de trabalho foram formadas e Sarubbi, com 19 anos à época, integrava a comissão especial  responsável pela organização da Exposição de Trabalhos Rurais realizada no bairro da Aldeia (casa de pescador, casa do campeiro, casa da farinha).

1 - Exposição no bairro da Aldeia.

 

Esse evento contou com a participação de nomes de destaque na política e no meio intelectual de Belém (Lopo de Castro, Bruno de Menezes, Washington Costa, Jacques Flores, etc) e Bragança (Zito César, Simpliciano Jr. Rodrigues Pinagé, etc), além dos convidados especiais, o dr. Edison Carneiro , representando o Ministro Renato Almeida, e ainda a folclorista carioca Zaíde Maciel. As palestras versaram sobre vários temas, mas, a tônica era sempre a valorização da cultura local, das tradições e de todas as manifestações culturais do povo.

A Jornada causou impacto pelas novas ideias sobre coisas que para o bragantino, pareciam tão banais: seus hábitos, costumes, suas crenças, suas rezas, suas festas. Isso tudo foi apresentado como algo especial e que valia a pena ser preservado. Foi nesse clima de valorização da cultura local que Sarubbi, o jovem e futuro artista plástico esteve envolvido naquele dezembro de 1958.

Os anos que Sarubbi viveu com a família, o tempo das férias escolares, ou da faculdade, foram os anos de gênese de seu imaginário pessoal, ligado à afetividade e à identidade cultural amazônica. Assim, ao se tornar um artista e, como “ser amazônico” revestido de uma percepção estética impregnada pela visão de mundo amazônica, matizou suas obras com as “tintas” de seu imaginário.

Em Belém, como aluno do Colégio do Carmo, foi convidado a participar do Norte Teatro Escola, grupo teatral criado por Benedito e Maria Sylvia Nunes e com o grupo atuou em diversas peças. Em 1960, na inauguração da Tv. Marajoara, Sarubbi foi convidado por Maria Sylvia Nunes para participar como realizador, adaptando textos literários para o teleteatro apresentados na TV aos domingos de noite.

Em 1962, Sarubbi formou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará, mas, o coração de artista o levou a repensar a vida ao descobrir um problema cardíaco. Ele decidiu seguir seu coração e passou a se dedicar à Arte. Em 70, participou da seleção para a XI Bienal Internacional de São Paulo tendo sido aprovado para compor um grupo de 30 artistas brasileiros que iriam representar o Brasil na Bienal. Ele apresentou a obra intitulada Xumucuís, uma instalação composta por uma série de bastões de pau-de-chuva feitos de miriti e cobertos por papel de seda, brancos e vermelhos. Ao lado, um aviso para que as pessoas movimentassem os bastões a fim de produzir sons que pareciam com chuva, cachoeira, etc.. Assim, Valdir assumia uma tendência moderníssima no Brasil naqueles tempos, o da arte interativa.

Em São Paulo, o fato de estar longe da família, da cidade natal e de sua cultura deve ter despertado no artista uma necessidade de “retorno às origens”: Bragança – mundo afetivo permeado de família e da identidade cultural amazônica. Por mais adaptado ao novo ambiente e à nova cultura, a criança e o jovem que ele um dia foi, ainda estavam afetivamente presos à sua cultura primeira.

Assim, a obra produzida por Sarubbi, nesse primeiro momento em São Paulo, é cheia de símbolos que identificam as memórias afetivas de seus primeiros anos. Os desenhos detalhados, transformados em azulejos e Mandalas da fase Meditação Labiríntica que lembram os detalhes da casa azulejada de seus avós em Bragança.

Em todas as fases de seu trabalho, Sarubbi colocou suas saudades e suas lembranças nas obras que produziu. Como afirmou no livro de Rosana Bitar: é a nossa memória que faz com que façamos arte (2002, p. 76). Sua obra é sua vida, seus afetos, suas lembranças. Sarubbi traduziu essas reminiscências em arte com uma linguagem universal, plenamente compreensível em Belém, em São Paulo, na Alemanha ou no Japão.

Preso a essas memórias afetivas dos primeiros anos de vida e à bagagem cultural amazônica, Sarubbi transcendeu o regional e se tornou um artista universal, transformou sua arte em obras de infinita elegância e beleza, frutos de um conhecimento estético sem acasos, sedimentado na pesquisa, no talento, na disciplina e na paixão pela vida da ‘umidade’ amazônica (BITAR; 2002; p. 15).

 


REFERÊNCIAS

BITAR, R. Sarubbi. Belém, 2002;
CELINA, Lindanor. Menina que vem de Itaiara. RJ: Conquista, 1963;
PAES LOUREIRO, João de Jesus. Obras Reunidas: vol. Cultura Amazônica – uma poética do imaginário, SP: Escrituras, 2001;

OUTRAS FONTES

CENTRO NACIONAL DE FOLCLORE/ Museu/ Quem Foi Edison Carneiro
<http://www.cnfcp.gov.br/interna.php?ID_Materia=162 > acesso em 17.10.2013;
CENTRO NACIONAL DE FOLCLORE/ O Centro/ Histórico < http://www.cnfcp.gov.br/interna.php?ID_Secao=1 > acesso em 17.10,2013;
Relatório da I Jornada Paraense de Folclore – realizada em Bragança/Pará, de 22 a 27.12.1958, não assinado, mimeografado em papel timbrado com o símbolo da Jornada (Maruja), 02 cópia – Acervo Bordallo da Silva;
Impresso da I Jornada Paraense de Folclore (equipes e programação) – Acervo Bordallo da Silva;
MEDEIROS, Maria Lúcia. A Escritura Veloz. 1994 em < http://www.ocaixote.com.br/caixote18/ 18cx_contos_ mlmedeiros.html > acesso em 17.12.2008;
METRO DE SÃO PAULO < http://www.metro.sp.gov.br/cultura/arte-metro/livro-
digital/arquivos/assets/basic-html/page185.htmlC > acesso em 08.09.15.

 

 

Mariana Bordallo, Mestranda do curso de pós-graduação na área de Letras da Universidade Federal do Pará/Campus de Bragança: Linguagens e Saberes da Amazônia.

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