AUGUSTO MEIRA FILHO

DOCUMENTÁRIO

INTRODUÇÃO AO LIVRO: EVOLUÇÃO HISTÓRICA DE BELÉM DO GRÃO PARÁ

Observando a evolução da cidade de Nossa Senhora de Belém do Grão-Pará, concluímos que seu desenvolvimento ainda não havia sido caracterizado naquele sentido urbanístico de que nos fala a ecologia contemporânea, indispensável à compreensão mais larga de sua história.

Surgiu daí o desejo de evidenciá-la analítica e cronologicamente, quando uma ação dinâmica visaria compor sua perspectiva em seus vários aspectos evolutivos.
Partimos da leitura meticulosa de velhos cronistas, investigamos documentos, códices primitivos, consultamos desenhos e efetuamos pesquisas nos museus, nas bibliotecas e arquivos, decifrando segredos centenários entre os seus mais credenciados historiadores. Encontramos, finalmente, a encantadora paisagem da urbe no fascinante reflexo de três séculos e meio de existência, confirmando seu destino histórico de que não seria a menor de todas [Nequaquam Minima Es].
Dar a este ensaio caráter próprio, um sentido lógico no encadeamento dos diversos episódios de sua vida urbana, é o nosso propósito, tentando senti-la desde seus primórdios no século XVII até nossos dias.
Os caminhos a que nos propusemos seguir, louvados no espírito generoso dos mestres, fixam, em cores singelas, e autênticas, uma nova urbanística de Belém do Grão-Pará, função, sobretudo, da verdade, do bom senso e do dever de servir o rincão onde nascemos.
Em síntese, procuramos demonstrar o crescimento de Belém na ordem de sua revelação. Não, somente, a resultante de um laborioso esforço de investigação técnica; antes, a do artista que nela procurasse se inspirar, a fim de traduzi-la através de uma fonte permanente de beleza e de uma forma literária essencialmente histórica.
Nosso cuidado maior na elaboração deste trabalho foi o de apresentá-lo em termos de humildade.

 

* 1631: A CIDADE, SENTIDO URBANÍSTICO DE SUA EVOLUÇÃO, O PIRI, A COLONIZAÇÃO EM MARCHA.

“Deixáramos Belém se expandindo, quando da posse de seu terceiro governante. Daquela época aos últimos fatos que contribuíram à indicação de Feliciano Coelho, a cidade se dinamizara, recebendo substanciais impulsos em seu desenvolvimento urbano. No decorrer desse tempo, construções surgiram nos caminhos primitivos que, agora, se dirigiam para o interior, buscando maiores distancias na floresta. Nos fins da rua do Norte, os primeiros sinais do Convento Carmelita e de sua capela já contrastavam no verde colorido da densa mataria. Os colonos acatavam as ordens superiores, determinando o avanço da cidade para o interior e, assim, apareciam as novas estradas transversais ao rio, contribuindo à forma primitiva das quadras urbanas, em todas as direções do povoado.
Além do largo central da matriz – fonte perene do berço de Belém – a capelinha de São João, que Bento Maciel erguera a sua própria custa, ali estava, silenciosa, dominando a paisagem nascente da colônia... Ao lado do forte, então reconstruído em proporções maiores, descia a ladeira aberta em direção do mangue; largo, argiloso, marginava a fortificação e, em seu aspecto alagado, parecia envolver toda a área da cidade edificada a partir do Presépio. Primitivamente, os moradores julgavam que a colônia se assentara em uma ilha, tal era a gravidade dessas baixadas pantanosas que emolduravam a sede da capitania. Águas paradas, aves multicores, ambiente tranquilo e soberbo de verdejantes mururés, compunham o Piri que os nativos denominavam baixios da Juçara, para caracterizar o igapó que originava a formação do “lago”, criando uma enorme bacia alagada no interior da urbe. Daí a impressão de ilhota atribuída, em nossos primeiros tempos, aos fundamentos de Belém. Partindo de sudoeste, o valado do Piri circundava uma área apreciável da cidade; no verão, secava a medida da maior ou menor força do estio. No inverno, atingiam suas águas mortas quase a cota de um metro, em toda a superfície perimetral represada, despejando, finalmente, sua corrente, no Guajará, a face oriental do Presépio. Dois séculos após, como veremos, o Piri seria ainda um dos mais graves problemas de Belém, impedindo a expansão de seu traçado, dificultando seu ensecamento, sua drenagem e a urbanização de novos bairros.
Os portugueses, na lida da caça, então um dos principais alimentos da população, logo ultrapassaram esse Piri e no delírio de penetração continental, percorreram suas margens debruçadas sob a mata. Marginando os barrancos, um caminho sinuoso partia do alagado, seguindo o litoral emaranhado de raízes e cipós; em toda parte, parasitas e gramíneas cresciam entre aguapés que floresciam na praia movediça de argilas e tronqueiras seculares. Levava a vereda litorânea às instalações dos capuchos de Santo Antonio, que começavam a edificar seu convento nos confins da cidade, transferidos do Una onde viviam desde sua chegada ao Grão-Pará, em 1617. Os frades, agora, poderiam desfrutar de um belo clima, lugar seco, alto, que deslumbrava os olhos com as belezas da paisagem da baía fronteira, de ilhas distantes que mergulhavam nas águas buliçosas do Marajó, o horizonte perdido da Baía do Sol e do Separará!
Na colheita de especiarias, os colonizadores encontraram outro campo para o conhecimento do sertão. O povoado, assim, se expandia, nessa penetração constante, nessa ambição de conquista. Cada percurso novo, cada picada aberta na floresta solitária, cada trilha do caçador recolhendo sua fortuna, transformar-se-ia nas fontes onde a cidade encontraria a sua própria formação, embora rude e empírica. Nesse êxodo do centro urbano para o interior da selva, nessa fuga do rio para o continente desconhecido, Belém fixaria as suas primeiras artérias paralelas ou normais ao litoral; logradouros surgiriam desse processo dinâmico, sem perder sua poesia natural, suas tortuosidades topográficas, suas copas fechadas de árvores gigantescas, seu chão vermelho e cascalhudo que o colono conhecia e castigava em suas andanças e conquistas. E tomavam seus nomes, das raízes inesquecíveis da pátria. Também de suas características locais, suas cores, suas nuanças típicas. Cresciam, na espontaneidade da voz popular, humilde, tentando fixar um aspecto novo da colônia, ou, talvez, um desejo humano de perpetuá-los na denominação dos varadouros, dos caminhos, dos becos que se tornariam travessas, ruas, avenidas da grande capital do Grão-Pará. Depois daquele arranco da clareira que avançara dando os rumos certos do traçado que o povoado ia incorporando a sua vida urbana, essa dilatação imposta pelo crescimento de Belém, daria à capital do Pará novas ruas de acesso à mata e aos seus arredores: rua do Aljube, da Alfama, rua Longa e já algumas transversais, igualmente indisciplinadas, de concepção primária onde prevaleciam, ainda, os motivos preponderantes do lugar: travessa da Residência, da Atalaya, da Água das Flores, da Barroca, dos Ferreiros.
Essa, a imagem que podemos sentir da cidade em sua plena formação no correr de seus primeiros tempos. Vivia a colônia já quinze anos na comunhão de portugueses e indígenas, de europeus e ameríndios que aqui deveriam fundar um novo império e uma nova raça. A população era constituída dos soldados da expedição e dos missionários que se entregavam a catequese dos nativos trazendo-os a fé cristã. Chegavam, vez por outra, imigrantes de outras capitanias, degredados, fugitivos, gente que vivia dispersa nas explorações, ingleses, franceses e holandeses que restavam, aprisionados ou vencidos nas lutas internas pela conquista da região. Como os indígenas, habitavam em pequenas palhoças espalhadas nas redondezas do Presépio e, assim, uma coletividade nascia para fortalecer a vida social da povoação.
Durante muito tempo o estado do Maranhão foi destinado ao degredo de toda espécie de gente que a coroa bania e enviava da Europa e se tornara hábito dos governadores-gerais do Brasil em adotar aqui o mesmo exemplo da corte. E o Grão-Pará necessariamente recebia, também, uma parcela desses degredados enviados à sede da capitania. Dessa forma, a população de Belém era composta desse tipo de povoamento desordenado, oriundo de regiões diferentes e que, em conjunto com os silvícolas, originaria esse caldeamento de raças heterogêneas de onde se gerou, também, em seus fundamentos, o povo brasileiro.
No Pará Grande [Grão-Pará] achei Neerlandezes, Inglezes e pessoas de outras diferentes nações que alli se conservavão captivas, e que, havia muitos annos, tinhão sido aprisionadas no paiz das Amazonas, entre outros, um Jacob Heyns, de Flessinga, que alli estava, já havia 15 annos e outros Neerlandezes prisioneiros; trabalhando todos para o seu sustento e manutencão, com o risco de ficarem de tudo privados e morrerem de fome. Também vi no Pará Grande, e eu mesmo lhes falei, alguns dos onze marinheiros do navio, O Blaeuwen Haen, que tendo ido com sua chalupa em demanda de refrescos, foram attacados pelos Portugueses e apprhendidos. Vivem como prisioneiros no Pará Grande e são muito maltratados: nova prova de que o que disse acima he a verdade.
São palavras de Maximiliano Schade em seu “Relatório” datado de 4 de novembro de 1644, conforme transcrição de Cândido Mendes de Almeida (Memórias do extinto estado do Maranhão, 1874, t. 2, p. 453-454). Confirmam essas expressões, de quem viu e assistiu o processamento de nossa colonização e tendo dela participado, a natureza do povoamento inicial da colônia, como vimos analisando. Mais tarde, o sangue do africano viria completar essa mistura sui generis, onde o negro deixaria na alma desse mesmo povo aquele sentido de nostalgia e de fixação à terra que, em boa parte, caracterizam os nossos sentimentos.
O problema da colonização se tornava, portanto, função direta do braço do indígena. Era do gentio que o colono recebia as primeiras experiências para a adaptação de sua vida à região do Grão-Pará. Ainda era do seu conhecimento e do seu apoio que dependeriam as conquistas da selva e a prosperidade da civilização que os portugueses desejavam implantar nestas vastidões da Amazônia imatura e deslumbrante. Portugal, pela sua escassa possibilidade populacional diante de seus domínios que se estendiam em todos os continentes, não poderia, sem dúvida, remeter colonos para reforçar os trabalhos de conquista de seus generais no novo mundo. O Estado do Maranhão, como parte dessas conquistas, também se ressentia do espírito resoluto do colono para os serviços mais importantes da capitania. Belém, como centro das regiões do Grão-Pará, igualmente, sofria das mesmas necessidades para o seu desenvolvimento, já que a sua evolução urbanística estava condicionada ao crescimento de sua população. Soldados, missionários e índios representavam o volume total dos moradores, habitantes primitivos da cidade que se fundara às margens do Guajará. Vem de 1621 a chegada a Belém dos primeiros casais, vindos de Açores, como parte da remessa enviada ao Maranhão (Arthur Reis, Aspectos econômicos da dominação lusitana na Amazônia, p. 17). Localizados no interior da colônia como sesmeiros, em nada contribuíram para o aumento dos residentes na capital, e o braço do gentio continuava sendo a única fonte garantida e certa para os trabalhos, dos quais dependeria o futuro da colonização portuguesa entre nós. Não fora a sua inesgotável quantidade no litoral e nos sertões da planície, e os fundadores lusitanos jamais teriam a oportunidade de dominar a majestade dessas florestas, a caudalosidade desses rios imensos e, expulsando intrusos, incorporar ao seu domínio colonial essa gigantesca Amazônia, como a maior contribuição da conquista lusitana realizada no século XVII.
O trabalho do indígena e que conhecia a gleba em todos os seus segredos, tornava-se, portanto, a força decisiva para a prosperidade da colônia. Ele era explorado em todos os sentidos; na sua capacidade, nos seus conhecimentos da colheita de especiarias, como caçador, marinheiro e soldado emprestava com ardor todo o seu devotamento ao colono, ao “branco que era a cabeça pensante, e sobretudo o estômago insaciável, que digeria toda a substância do trabalho alheio” (João Lúcio de Azevedo, Estudos de História Paraense, p. 41).
Como o objeto de maior valor dentro da floresta, pela sua fartura e pela sua insubstituível aplicação e necessidade, o nativo, o gentio que os desbravadores lusitanos aqui encontraram distribuídos nas várias tribos de que faziam parte, passou a ser aos colonizadores a razão maior para os seus empreendimentos, para os seus desejos de conquista e de enriquecimento. Uma razão econômica pesava naquela unidade humana servida na floresta que o português procurava dominar a qualquer preço e o missionário transformava em um elemento novo para a civilização e para a cristandade.
O colono escraviza, violenta, explora o braço do gentio. O missionário, ao contrário, em luta aberta pela liberdade desse mesmo gentio contém-lhe os ardores guerreiros, as impetuosidades marciais, conduz com habilidade as suas inclinações, exercita-o para uma vida menos selvagem, ensina-lhe as novidades da cultura da terra e da criação do gado. (Arthur Reis, Aspectos econômicos da dominação lusitana na Amazônia, p. 16).

Sob outro aspecto, a presença dos aborígines, dos valentes Tupinambás que habitavam as margens do Guajará e o interior da capitania, significava a posição do orientador diante do desconhecido, do inexorável que deveria ser vencido e conquistado pelos recém-chegados e ignorados da região. Seria ele o guia indeclinável, o primeiro que acompanharia o próprio inimigo aos insondáveis mistérios da planície e que, depois, viria a ser escravizado pelo invasor de suas próprias terras a quem, em boa fé, ajudara a adaptar-se com os ensinamentos e conselhos que trazia desde o berço, da formação de suas tribos nestas terras de deslumbrantes riquezas naturais e que lhes pertenciam, antes que as caravelas portuguesas debruçassem suas velas nos horizontes guajarinos e as suas âncoras vitoriosas se derramassem nas águas turvas do rio.”

* Trecho do livro Evolução Histórica de Belém do Grão-Pará, capítulo II, pp. 104-107.

 

Evolução Histórica de Belém do Grão-Pará, de Augusto Meira Filho.

ugusto Meira Filho iniciou a elaboração de A Evolução Histórica de Belém do Grão-Pará em 1964, escrevendo à mão em um caderno, e depois numa máquina de escrever Remington. Sua intenção, desde o início, era a de discorrer sobre a ‘evolução urbanística’ da cidade, desde 1616 até 1950. Parou em 1823, data da chamada ‘adesão’ do Pará à independência do Brasil. A primeira edição, logo esgotada, foi lançada no ano de 1976. Eram dois volumes somando 893 páginas, com ilustrações, mapas, cópias e transcrições de documentos sobre a história da cidade de Belém.
A edição comemorativa foi lançada em janeiro de 2016 e celebra o centenário de nascimento do autor, e o quarto centenário de Belém do Pará. O conteúdo do livro é o mesmo da edição de 1976, mas enquadrado nas regras ortográficas e bibliográficas de hoje. Possui dez capítulos, que seguem uma ordem cronológica, notas, bibliografia e ilustrações. Incorporou modificações de forma, ajustes na exposição do texto, além de novo projeto gráfico, uma introdução crítica e o perfil do autor. Todos os acréscimos iconográficos têm o intuito de enriquecer com imagens o conteúdo da obra, e reforçar a sua função cultural e educacional. Um caso exemplar, entre outros, é a inclusão da planta mais antiga de Belém hoje conhecida, feita pelos holandeses em 1640, e descoberta recentemente no Arquivo Nacional da Holanda.
A paixão que o autor devotava às ‘tradições’ de sua cidade natal, o animou na pesquisa solitária e minuciosa a que, desde 1964, se dedicou por mais de dez anos de, dividindo-a com atividades políticas e de engenheiro. O esforço empreendido por Augusto Meira Filho incluiu pesquisas em arquivos e bibliotecas do Brasil, - em Belém e Rio de Janeiro -, e de Portugal, principalmente em Lisboa e no Porto, onde localizou inclusive documentos até então inéditos sobre a obra do arquiteto Antonio José Landi na Amazônia, que divulgou nas páginas do jornal A Província do Pará.
Como atestam a ampla bibliografia e as notas de cada capítulo, Meira Filho escreveu seu livro auxiliado pelos textos de muitos cronistas e historiadores que lhe antecederam, como também de seus contemporâneos, mas com uma interpretação própria, mais próxima da crônica. Neste aspecto, o livro pode ser caracterizado também como fruto de uma imaginação romântica, uma postura sentimental, mas também de compromisso político do autor em relação à formação cultural da cidade de Belém, sobretudo de sua base territorial mais primitiva, - e portuguesa, - em termos de tecido urbano, os bairros da Cidade Velha e da Campina.
Embora possuísse uma formação de base humanística, com viés positivista, trazida dos anos de estudos no Ginásio Paes de Carvalho, Meira Filho graduou-se como engenheiro civil pela antiga Escola de Engenharia do Pará, cujo currículo incluía cadeiras de arquitetura e urbanismo. Sua condição de engenheiro explica a ênfase dada em seu livro à ‘evolução urbana’ da capital do Grão-Pará, e a um ‘sentido urbanístico’, sempre presente, que incluiu a preocupação com a composição do traçado urbano e os processos construtivos das edificações erguidas na cidade nos séculos XVII, XVIII e início do XIX.
Ao discorrer sobre a história de Belém de sua fundação até 1823, o autor oferece uma cronologia do poder colonial – civil, militar e religioso - conferindo destaque aos seus aspectos paisagísticos, como também a sua territorialidade urbana, expansão geográfica e importância administrativa e geopolítica para toda a região amazônica. Ao longo do período abordado, Belém constituiu-se no principal polo econômico, político, militar e religioso da expansão colonial portuguesa na região hoje conhecida como Amazônia.
Desde 1621, na América Portuguesa, o ‘Grão-Pará’, - onde se falava majoritariamente o nheengatu (língua de origem tupi usada na catequese dos povos indígenas) e não o português -, vinculava-se diretamente à Lisboa, permanecendo cerca de 200 anos separado política e administrativamente do Estado do Brasil, cujas capitais, no mesmo período, foram as cidades de Salvador e Rio de Janeiro. Esses fatores geográficos e históricos de base colonial foram determinantes e estruturantes na formação e ‘invenção’ da Amazônia contemporânea.
Ao fazer referência a Belém como capital do ‘Grão-Pará’, o autor pretendia plasmar o papel e a importância estratégica desta cidade durante a época colonial. Ela formou, juntamente com São Luís, a dupla de capitais do antigo Estado do Maranhão e Grão-Pará, tornando-se posteriormente, em substituição àquela fundada pelos franceses, a capital do ‘novo’ Estado do Grão-Pará, Maranhão e Rio Negro, criado pelo Marquês de Pombal em meados do século XVIII, e cujo primeiro governador foi Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês. Tempos de fortes mudanças na capital e em todo o Estado, como o livro procura mostrar.
Ao construir sua narrativa sobre a cidade e sua disposição estratégica na Amazônia colonial, Augusto Meira Filho assumiu posições claras em relação aos principais ‘atores’ e ‘situações’ do processo histórico. Por exemplo: há uma honesta devoção ao caráter lusitano desta cidade e à ‘bravura da gente portuguesa’, em erguê-la e defendê-la, procurando dar um sentido legítimo e épico à obra colonizadora, mesmo quando critica agentes do Estado ou da Igreja por abusos e violências, inclusive contra os povos indígenas, caso do governador Bento Maciel Parente, pelas barbaridades que cometeu contra os Tupinambás no século XVII.
Os povos indígenas são tratados em geral como ‘primitivos’ ou ‘bárbaros’, e em algumas situações como ‘guerreiros’ que lutam em defesa de seus territórios, dependendo, seja dito, se eram aliados ou inimigos dos portugueses. Há uma ambivalência nesse caso, embora com uma perspectiva convicta, de clara influência positivista, na inexorabilidade do extermínio dos indígenas em função de um processo civilizacional encarnado pela colonização lusitana e o papel das missões religiosas.
O autor comungava das ideias de Gilberto Freire e Câmara Cascudo (inclusive manteve com o escritor potiguar intensa correspondência), e deixou implícita em sua abordagem que creditava aos indígenas e negros ‘domesticados’ e integrados à colônia, mestiçados com os colonos portugueses ‘civilizados’, a base da formação sociocultural da cidade e da região. Em contraponto, julgava os demais colonizadores franceses, ingleses e, sobretudo holandeses, que rondavam a região das Guianas e a foz do Amazonas no século XVII, como ‘hereges’, ‘piratas’ e ‘invasores’, portanto ilegítimos ‘donos’ da região. No entanto, como dito acima, o que interessava mesmo ao autor é a formação urbana da cidade. Ela, a cidade, cujas construções antigas estavam ameaçadas já nos anos 1960, constitui sua principal ‘personagem’ histórica.
Nesse sentido, a obra é marcada pelo enfoque de um técnico, político e jornalista de seu tempo. Um ‘cronista’ que embora tivesse um perfil de historiador ‘leigo’, possuía sólidos conhecimentos de arquitetura e engenharia, inclusive sanitária e de solos. Dessa investida decorre um dos interesses que o livro desperta desde seu primeiro lançamento: uma obra de referência para arquitetos, urbanistas, além de outros profissionais ou quaisquer cidadãos que têm interesse em preservar o patrimônio edificado e urbanístico de Belém.
Ele interessa também, pelas projeções de futuro que faz ao final do livro, a quem pretende compreender e gerenciar o legado da cidade colonial e os desafios da Belém de hoje: metrópole complexa, caótica, socialmente desigual, e ainda assim de personalidade forte e bela, cuja gente tem suas raízes culturais profundamente marcadas pela formação colonial luso-afro-indígena. Isto em pleno século XXI, quando completa 400 anos. Este é um dos motivos porque este livro será sempre atual.

 

AUGUSTO MEIRA FILHO E A PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO EDIFICADO DE BELÉM.
As políticas nacionais de proteção ao patrimônio histórico e artístico do país, fortalecidas em 1937 com a criação do SPHAN (hoje IPHAN) e muito focadas, nos seus primórdios, no patrimônio de pedra e cal, exerceu forte influência sobre o autor e em alguns de seus contemporâneos no Pará, principalmente a partir da década de 1950, os quais procuraram defender esse patrimônio, quase sempre sem sucesso. Como vereador de Belém no final dos anos 1960 e início de 1970, Augusto Meira Filho foi o autor da primeira lei municipal de proteção do bairro da Cidade Velha, que, no entanto, nunca foi aplicada pela municipalidade até a lei de tombamento municipal dos anos 1990.
Há, portanto, que se registrar que a cidade de Belém ‘construída’ ao longo do período analisado em seu livro é aproximadamente aquela que atualmente constitui o chamado ‘centro histórico’, reconhecido nas últimas décadas e tombado pelo patrimônio histórico nacional, estadual e municipal, tanto na sua integralidade espacial quanto em conjuntos e bens individuais, onde se pode destacar o mercado e a feira do Ver-o-Peso. Até mesmo o Círio de Nazaré, - sobre o qual o autor dedica algumas páginas do livro -, o patrimônio ‘imaterial’ mais importante de Belém, inscrito no Livro das Celebrações pelo IPHAN, é festejado há mais de 200 anos dentro dos limites da cidade estudados nessa obra.
Infelizmente, apesar de louváveis esforços recentes de restauração e renovação de monumentos, espaços e conjuntos históricos, e da legislação patrimonial que visa protegê-los, não podemos contar mais com a integridade do conjunto arquitetônico e urbanístico do centro histórico de Belém, que sobreviveu razoavelmente bem até meados do século XX. Na realidade, boa parte dele foi ou está sendo destruída, de forma muitas vezes irrecuperável, pela brutalidade da especulação imobiliária ou pela cobiça e ignorância de muitos, desde os anos 1970. Meira Filho já denunciava o início dessa destruição desde os anos 1950, como político e jornalista.
A reedição do livro de Augusto Meira Filho, quando Belém completa 400 anos, favorecido via Lei de Incentivo a Cultura - Semear com patrocínio da Sol Informática, visa oferecer uma contribuição, pelas informações que traz sobre os antigos monumentos e seus significados sociais, estéticos e políticos, para a maior conscientização dos cidadãos de hoje e de amanhã em relação à proteção e promoção do patrimônio urbanístico e paisagístico da cidade de Belém, uma causa e um desafio de interesse nacional, pelos quais o autor se dedicou de forma militante ao longo de sua vida.

* Márcio Meira é antropólogo do Museu Emilio Goeldi

 

 

Sobre Augusto Meira Filho

O engenheiro Augusto Meira Filho foi um apaixonado por Belém e pela sua cultura. Nascido em 5 de agosto de 1915, foi gestor público, atuando como diretor do antigo Serviço de Águas do Pará no governo de Magalhães Barata, onde teve como desafio a questão sanitária e regularização do abastecimento urbano; foi um dos fundadores da Sociedade Artística Internacional e da Sociedade dos Amigos de Belém, entidades voltadas a promoção e defesa das artes e do nosso patrimônio cultural nas décadas de 1940, 50 e 60. Meira Filho ainda se destacou como primeiro presidente da Fundação Cultural do Estado do Pará (a primeira instituição de política cultural do Estado, que deu origem à atual SECULT) no início da década de 1970, no governo de Fernando Guilhon, sendo o responsável pela restauração do antigo Palácio do Governo (atual Museu Histórico do Estado), concluída em 1973, e que o credenciou a ser tombado pelo IPHAN. Como Vereador, foi eleito presidente da Câmara Municipal de Belém, cuja sede hoje leva seu nome. Historiador autodidata que produziu livros e crônicas sobre a história de Belém, Augusto Meira Filho também era jornalista, escrevendo para o jornal A Província do Pará desde os anos 1950. Suas colunas, ‘Ronda da Cidade’ e ‘Jornal Dominical’ deram origem aos primeiros livros, entre os mais de 10 publicados – como ‘O Bi-secular Palácio de Landi’ -, sendo “Evolução Histórica de Belém do Grão-Pará” sua obra mais importante e de maior fôlego, e a que lhe rendeu o carinhoso apelido de ‘namorado de Belém’, pela vocação preservacionista e a defesa apaixonada da cidade, do verde e de seu patrimônio cultural, até a sua morte, em 8 de julho de 1980.

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