CARTAS DALCIDIANAS

CARTAS DALCIDIANAS

Pablo de Pão

as correspondências deixadas por Dalcídio jurandir nos permitem uma leitura abrangente de suas considerações sobre a realidade de Belém e do mundo. páblo de pão analisa cartas em que o romancista enviou e recebeu com familiares e amigos revelando a sua grandeza poética propícias à conservação da memória artística e da dignidade humana.

 

Os escritores brasileiros, até 1922, reentoavam modelos, ruminavam fórmulas de escrita, preescreviam modelos e nuances do bem escrever. Mero desencantamento! Fim confuso de uma metodologia que funcionava sob as luzes do Velho Continente, mas não trazia a brasilidade típica de nossos artistas, latejante em nosso povo. Eram marionetes que repetiam sistematicamente, em dinâmica de eco, uma organização e uma rede ideológica que nem de perto esbarrava em sua experiência.
Experienciar, um bom verbo para começar este artigo. Não pretendo me deter em uma obra ou esgotar um tópico narrativo. Estes são os registros de alguém que, apaixonado pela “assinatura” brasileira (leia-se por “assinatura” a capacidade de impressão da autenticidade em um ato ou registro), foi impressionado já na primeira leitura dos escritos de Dalcídio Jurandir.
Almejo um texto entrecortado mesmo, que funcione à guisa de incitação e não de fechamento – estratégia também utilizada pelo autor paraense. Quando narra seus enredos, Jurandir interpreta aspectos sociais na gente de seu Pará não com aquela linearidade sisuda, mas com a liberdade e a habilidade de alguém que também é fruto da terra, que a vive, a experimenta.
Quando em 1922 o quebra-cabeça literário se monta, culminando naquela Semana de Arte Moderna que alargou a visão de mundo e pleiteou novas plataformas de criação em arte, os literatos bebem da fonte do povo, das histórias e dos modos de um falar brasileiro, fragmentado, mas que não marca (ainda) regionalidades. Aqui está o menino Dalcídio, nascido em 1909 na Vila de Ponte de Pedras (Ilha de Marajó, PA) e criado em Vila de Cachoeira, na mesma ilha. Embora nada saiba do que acontece lá no centro ideológico do Brasil, a cidade de São Paulo, seu destino estava sendo traçado criativamente.
Na realidade, ao analisar as correspondências remetidas e recebidas por Dalcídio, podemos entender, em linhas gerais, a sua perspectiva de Marajó, enquanto zona de conforto em que foi criado, e Belém, a “cidade grande” para a qual os estudos fatalmente o levariam – e levaram. Em um país de educação historicamente precária, eram apenas os grandes centros urbanos (em maioria, as capitais) que ofertavam um ensino de qualidade. Pena não terem hábito, neste tempo, de adolescentes registrarem suas memórias em cartas!


Pego de empréstimo, desta monta, o menino Alfredo, protagonista de nove entre os dez títulos que compõem o chamado “Ciclo do Extremo-Norte”, “depoimento agreste e íntimo das coisas e gentes de Marajó e Belém do Pará” (Dalcídio Jurandir discursando ao receber da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra, em 29 de junho de 1972). Este termo caracteriza a saga da personagem citada de sua infância ao retorno enquanto jovem. Seus medos, suas memórias de vida, suas conquistas são construídas quadro a quadro, livro a livro. Cada título é uma unidade que, aproximada das outras, gera uma maior – a vida de Alfredo.


Focalize aqui, neste primeiro momento, as expectativas e a apreensão do infante ao se debruçar sobre uma cidade rodeada de expectativas e de desafios – saía da barra da saia da mãe, fiava-se a descobrir um mundo novo. Esta nova realidade trazia ao escritor um de seus definitivos escopos: repleta de sonhos e de mitologias, Belém era uma cidade viva, com todos os defeitos que se pode ter nesta louca maquinaria civilizatória chamada sociedade.
Os olhos do menino se desprendiam de um mundo baseado em narrativas que não eram ficção – Cobra Norato, o Boto, Matinta Pereira existiam, existem! O que se apresentava agora eram as temidas pessoas, personagens de uma realidade hostil e pouco lírica, buliçosa. O intelecto humano é uma complicada rede de imaginários e de hierarquias. Ler Dalcídio é, de certa forma, perceber certos mecanismos sociais.


Em 1929, depois de uma ida rápida e frustrada ao Rio de Janeiro para tentar nova vida, o escritor já estabelecia a primeira versão de seu primeiro romance, Chove nos campos de Cachoeira. A literatura, antes tão engajada em estabelecer uma comunicação brasileira e afrontar a tradição, trazia uma visão mais regionalista, assumindo que o estilo deveria prevalecer sobre as estéticas.
No período imediatamente após 1930, segundo Alfredo Bosi (2006, p.386), “grosso modo, o panorama literário apresentava, em primeiro plano, a ficção regionalista, o ensaísmo social e o aprofundamento da lírica moderna no seu ritmo oscilante entre o fechamento e a abertura do eu à sociedade e à natureza”. Esta alcunha mais comprometida com a análise social serviria para Dalcídio Jurandir colocar em seu Alfredo todo o desapontamento que Belém o causara – a cidade, as pessoas da cidade, eram falhas. Bosi (2006, p.426) reconhece na obra do escritor “mais complexo e moderno de todos” os amazônicos “um inegável valor documental”.


Neste sentido, as correspondências deixadas por Dalcídio nos permitem uma leitura abrangente de suas considerações sobre a realidade de Belém. Ao ler as anotações e o material, disponíveis em parte na Casa de Cultura Dalcídio Jurandir (Niterói, RJ), é corroborada a sua apreensão e o seu desencantamento frente a uma cidade que fora tão almejada, sobre a qual o povo tece expectativas de vida melhor e de reflexo do MODUS VIVENDI.
Esta abordagem foi enriquecida por um currículo em que constam cargos públicos e colaboração em muitos jornais locais. A perspectiva dalcidiana é jornalística, do cronista, do observador social. Com uma linguagem popular, assume um posicionamento muito claro de valorização e de necessário resgate de toda uma cultura ignorada e empresta suas letras para representar um pedaço de Brasil quase em caricaturas.


Quando se pensa na Amazônia, “região à margem da margem” (NUNES In LEITE, 2006, p.48), no Norte rico e versificado nas narrativas orais, parece haver uma uniformidade do discurso: vastos biomas e muitas lendas. Tudo verdinho, com troncos variados e muitos bichos escondidos. Tudo criatividade, justificativas míticas.
Para o índio e para o ribeirinho, não. E esse é o maior desafio de um leitor dalcidiano: entender que não se está falando em verdades ou mentiras ou em um mundo distante. Ali é Brasil, com uma convivência menos contaminada pela URBS confusa, supostamente centro do país. As explicações que dependem do festejado folclore de 22 de agosto não são invenções, mas leituras de um mundo palpável. Assim, o exotismo é falho e limitador – abra nossos olhos, “riomancista”.

 

UMA CIDADE EM PAPEL


Cartas e livros são tradicionalmente feitos dos mesmos componentes: papeis e palavras. O ato de escrever é já uma tentativa de sistematizar dados, portanto história manipulada, arquitetada por uma consciência. Ao escrever, o indivíduo coloca um tanto de si e um tanto de interpretação – totalmente ficcional ou baseada em fatos reais. E há tanto valor nisso!
O estudo de escritos humanos deve sempre considerar a multiplicidade de fatores que concorrem para um ato de criação – falar de gente parece ainda mais difícil. Diz o imaginário popular que, ao apontar um dedo para a análise do outro, está-se apontando quatro outros para si mesmo. De certa forma, ao revelar o outro, realmente deixa entrever virtudes e descuidos, desejos e afastamentos. Principalmente ao analisar o material de um homem das letras como foi Dalcídio Jurandir, hábil na elaboração de seus períodos prosaicos, por isso latentes.


Ao se deter em uma obra que tem uma abordagem nitidamente social, é comum e apropriada a interpretação de ser uma espécie de retrato, de registro de algo que se viveu. Cartas e obras, registros de uma gente em um tempo. Vicente Salles (In: JURANDIR, 1978) chancela: “Não é possível escrever a história social paraense sem o conhecimento da obra de Dalcídio Jurandir”.
Dalcídio é um cotejador entre memórias muito pessoais e uma apresentação competente da dinâmica de seu tempo. Afinal, “nas nossas narrativas de vida há uma ambiguidade entre o imaginário singular e o imaginário coletivo e entre eles não há fronteira que os defina ou separe sem que um já esteja com as marcas e as pistas do outro” (PORTO, 2010, p.19).


Assume este estudo que o menino Alfredo, nome do pai de Dalcídio Jurandir e de seu primogênito, protagonista do Ciclo de sua obra literária, registra impressões do mundo que o menino Dalcídio trazia. Sem estabelecer uma visão extremista da literatura alienada nem totalmente comprometida com a verdade, sabe-se, com Aguiar e Silva (1973, p.276), tratar-se de um “cronótopo”, ou seja, uma atividade situada em determinado tempo e lugar históricos e, por isso, entrevê marcas autorais.
Desta forma, a cidade de Belém compõe o universo ficcional do leitor dalcidiano – seja das cartas, seja das obras. Para tanto, é essencial identificar dois momentos de apresentação: um primeiro, brevemente já apontado neste estudo, marcado pela antevisão de Belém, uma cidade em expectativa; um segundo, em já a experienciando, tece considerações nem tão doces de sua gente.

 

BELÉM DOS SONHOS


Não há dificuldade em entender o mecanismo que se deu na cabeça do menino Dalcídio Jurandir acerca de Belém: ao mesmo tempo em que era pressão (pois futuro inequívoco de uma formação escolar eficiente), estava cercada de possibilidades (não era lá, como diziam, que o mundo ia se abrir para ele?). “logo inventaram uma crisma com seu Virgílio por padrinho. Sabia lá que vícios e doenças trazia o moleque, por certo cabeça rude, avesso a estudos, arrastado pela mãe, que desejava ter ‘um filho estudando na cidade’” (JURANDIR, 2004, p.52); “Alfredo acorda com aquela cidade cheia de torres, chaminés, palácios, circos, rodas giratórias que lhe enchem o sonho e o carocinho. De olhos abertos, para o telhado, pensa na sua ida para Belém. Seu grande sonho é ir para Belém, estudar” (JURANDIR, 1978, p.46).


Era a “cidade grande”, orgulho dos que visitavam os interiores do Pará e desejo dos que “ainda não estão na idade” para descobri-la. E talvez seja exatamente este o problema como bem sintetizou Gunter Karl Pressler (2011, p.46): “Na cidade, Alfredo é o menino pobre do interior, e [sic] na ilha, é o rapaz da cidade”. Não há um “empoderamento” do espaço narrativo pelo personagem, o que cria um clima propício ao desconforto decorrente da insatisfação da sua expectativa.
Antes de ir estudar em Belém, o contato com a cidade se dá principalmente pelo sonho da mãe, dona Amélia, de retirá-lo do ambiente hostil que já arde no primeiro capítulo de Chove nos campos de Cachoeira. O cenário de Cachoeira é marcado pelo contraste entre as inundações, quando aquela vontade do envio se acentuava, e a queima dos campos, marcando o período complicado do Ciclo da Borracha.


Vale ressaltar, neste estudo, que, na vida cotidiana, o que se experimenta é uma Belém em transição: com o declínio do Ciclo, a vida das pessoas não é apenas afetada econômica, mas socioculturalmente. O protagonista não estabelece uma relação de identidade com Belém, o que vai ser agravado pelo descontentamento que as pessoas causam.

BELÉM REAL


Quando, em 1940, Dalcídio Jurandir recebe o Prêmio Vecchi – Dom Casmurro por Chove nos campos de Cachoeira, registra que, fora de Belém, sua fama é reconhecida: “Estou gosando a risada do pessoal sabendo que o romancista premiado está de catapora!” (carta a Guiomarina, sua esposa, em 05 de agosto de 1940). Em um hospital, prevê dez dias ainda para sua saída, instigado pelo silêncio que ali se estabelecia.
No entanto, não é incomum, em uma rápida consulta ao acervo da Casa de Cultura Dalcídio Jurandir, encontrar cartas em que o romancista mostra o desapontamento em ter de viver no anonimato e em pobreza. Mais do que um desconcerto com a profissão escolhida, as condições de vida na cidade não eram propícias à conservação da memória artística e da dignidade humana.


Recepção hostil de uma Belém em decadência, tal qual Alfredo experimenta em Ponte do Galo. Ao encontrar a mãe na cozinha, ao retornar da capital em férias dos estudos ginasianos, ela ralha: “Espera eu ficar de bôca aberta por teres chegado do Ginásio, etc e tal? Estamos eslaldados [escaldados]” (JURANDIR, 1971, p.10). Naquele discurso, registra-se a amargura de um povo que só será superada no derradeiro romance, Ribanceira.
O compromisso de Dalcídio com a família que criara, ademais, justifica a sua permanência no Rio de Janeiro nesta época. “Você sabe a responsabilidade da grande família que temos. Isto é que faz pensar. Aqui há probabilidades para vencer. Resta-nos não precipitar. Também não é possível fazer concessões. Viver, mas com decência, com dignidade e com fidelidade ao povo donde vivemos” (em outra carta à esposa Guiomarina, sem data). A capital fluminense tornara-se, para o real escritor, a Belém do pequeno protagonista dos escritos seus – fonte de crescimento e de honradez.


Em contraponto, remetendo à amiga Divina, sem data explícita, promove uma análise da sociedade em que vivia no seu Pará, “dirigida ainda pelo dinheiro, pelos mitos e pela ignorância”, em que os escritores se corrompem para tornarem sua obra reconhecida. Dalcídio se reconhece “muito pobre”, mas servidor dos seus concidadãos e receptor de “uma força espiritual que [o] sustenta”.


Esta herança toda amazônica, encantamentos e vocações, com seus índios e sua convivência pacífica que norteia até hoje o imaginário sobre a região. Mas o Ciclo da Borracha também fez Dalcídio Jurandir se preocupar com o tratamento brutal dado àquela cultura primitiva: “Belém se cobriu também de sangue de índio, batizou-se nesse sangue [...] Temo pela descaracterização de Belém, condenada a urbs desumana, poluída, igual a qualquer cidade. Esse progresso desigual faz robots, não cria alma. Aumenta a riqueza e multiplica a necessidade” (em carta a Maria de Belém, In: MENEZES, 1996, p.20).


A cidade deste segundo tempo de registros do escritor esquece sua história, apaga sua memória em nome do progresso. Uma marcha que deteriorou inquestionavelmente as metrópoles brasileiras, ecoando pelos grandes centros urbanos. A Belém violada pela ambição humana é a cidade dos terrores de um paraense que vê o triunfo de um povo em seu chão original.


Em carta de 08 de setembro de 1947, tece comentários ao amigo Hermes sobre a necessidade da reação das pessoas através de uma unidade de ação. Esta ideia, que reflete a sua envergadura comunista e engajada politicamente, tira o foco da capacitação de um grupo social ou outro pela luta e traz a questão para a comunidade: “Não é com Botelhos, com Agostinhos, com Baratas, que se pode fazer alguma coisa. Faz-se com o povo, partindo do princípio da defesa da Constituição e da união entre Partidos para a discussão franca e leal dos problemas mais imediatos do povo”.
Circunscreve, assim, sua Belém, em uma área de conflito político em que a individualidade sobressai a uma consciência social de luta compartilhada. Quando pensa em uma revolução para o povo, é ele próprio o agente da transformação, seja jovem ou velho, experiente ou não. Aparece, deste modo, o anti-herói, o “grupo dominante” que age com agressividade e perseguições antidemocráticas. Segundo a correspondência de Dalcídio, é ele quem impede o “progresso em nossa terra”.
Estabelecida a dicotomia básica dos registros que Dalcídio deixou: a opressão empregada pelos detentores dos valores capitalistas é muito mais expressiva do que a resistência dos que tem piores condições de sobrevivência. A garantia de manutenção desta dinâmica estava no cerceamento do povo e no convencimento oriundo da vitimização da periferia.


No entanto, não estamos falando, em literatura, de um desmerecimento da cidade, mas de uma abordagem em que os diversos tipos humanos, com suas qualidades e seus defeitos, desenham um lugar muito mais interessante e promissor. “É por intermédio deles [dos “seres humanos” de Belém do Grão-Pará] que Belém se transforma numa paisagem interior riquíssima, num conjunto de vivências coordenadas, que dão forma aos acontecimentos e expressões, ao que de objetivo, histórico e socialmente relevante está envolvido nos episódios particulares e circunstanciais” (NUNES, 1961, p.1).

 

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