CIDADE POESIA

CIDADE POESIA

Vasco Cavalcante

Em comemoração aos 400 Anos de Belém, o site Cultura Pará resolveu fazer uma homenagem à cidade com textos poéticos de 22 escritores que fazem parte atualmente do projeto, em uma publicação virtual e posteriormente em uma edição impressa, intitulada “Belém 400 Anos”

 

O Cultura Pará tomou a iniciativa de convidar os escritores que fazem parte do site, à participarem de uma publicação virtual tendo como tema os quatrocentos anos da cidade de Belém, comemorado no dia 12 de janeiro de 2016. Com isso, 22 autores enviaram textos para compor esta obra de forte expressão poética e sentimental, com emoções bem variadas sobre o que representa Belém para cada um deles nos dias de hoje, com reflexos do passado e o desejo de se viver em um lugar mais humano, mais saudável e mais pacífico. Isso tudo nos leva à uma grande reflexão sobre o que somos como cidade e o que sonhamos diante das tantas mudanças que sofremos ao longo dos anos, gerando em cada um de nós uma certa ansiedade quanto ao futuro dos que vivem aqui e amam esta cidade. No dia de seu aniversário, foi lançado o livro virtual. Depois iniciou-se uma campanha para a viabilização da obra impressa. Para isso, fez-se uma chamada em redes virtuais apresentando o projeto e a meta a ser alcançada, com total transparência para todos os seguidores do site. O Apoio veio naturalmente, reafirmando a credibilidade dos que nos seguem e aprovam este projeto de valorização da arte e da cultura paraense como uma forma de melhor educar, desenvolver e criar senso crítico para viabilizarmos melhores condições de vida social e cultural para todos.


“Criado em 1997 pelo web designer e poeta Vasco Cavalante como uma página cultural para lançamentos de exposições e vitrine para os artistas da terra o site Cultura Pará cresceu e tornou-se não apenas fonte de pesquisa sobre a produção artística, mas verdadeiramente um guia para os que, ao longo desses anos, quiseram conhecer um pouco da produção de Belém e outros municípios paraenses, no que se refere à pintura, literatura, fotografia e teatro” certifica a fotógrafa e jornalista Maria Christina.
Além das informações sobre as várias expressões artísticas da cidade, o site possui dados biográficos de artistas plásticos e escritores, e de vários museus e galerias da região. Há 19 anos mantém uma agenda semanal, contendo informações sobre eventos artísticos como shows, exposições, espetáculos e lançamentos de livros.

 

MARCÍLIO COSTA

Muro Soledade

Um silêncio de cimento
atravessa a vida de mãos dadas com a morte.

Do lado de fora
uma voz afronta a fúria luminosa dos metais:
carros e passos passos passos – soluções da pressa.
Uma voz envolta em fúria e fuligem
e saber qual boca a insinua, ultrapassa este
gesto da ferrugem.
Daqui não distingo forma alguma,
se humana ou ave estranha vinda de um nunca mais.
Vez em quando brilha entre a fenda do olvido,
colorindo a falta com um abissal mistério.
Uma voz insiste. Não reconheço sequer uma cor.
Segue o dia, mar entre pedras, e na espuma
alguma coisa, arfando seu soluço, afoga-se
na praia de motor e passos – sem imprimir seu segredo.

Do lado de dentro,
uma oculta voz; que a todos, um dia, impõe a sua língua;
une Babéis ao chamado irrecusável do tempo
e lembra ao corpo, em sussurro, sua irrevogável sentença:
– pasto para os cavalos alados do esquecimento.

 

JOSETTE LASSANCE

Belém não é a mesma

como aquela primeira casinha feita no caderno de desenho na
sala de aula, na última fileira de carteiras da escola .
A rua dos Mundurucus tinha uma pintura leve de asfalto onde
caíam folhas das árvores, eu apanhava a folha e a fazia rodar no dedo.
Um dia perdi a merendeira, abaixo da sumaumeira da Praça
Batista Campos.
Morava em frente ao Horto. Quando a chuva cai ainda sinto o
aroma do limo que desprendia dos muros
enquanto chovia, colhíamos taperebás
enquanto chovia, olhava pela janela
a vala cheia de piabas - nadando na claraboia do esgoto
- Belém era doce -
A terra da rua engolia o sumo da manga – as salamandras corri-
am para esconder-se no escuro das pedras
Andar na garupa de bicicleta às sete horas da noite – respirando
o vento –enquanto os gordinis e os jeeps faziam seus barulhos de
motor
Dentro de mim cabia a infância – e Belém era a minha cidade –
parecia tão larga
A avenida Nazaré quando os blocos de carnaval passavam –
vinha o diabo – lembro de seu rosto vermelho – os chifres – o rabo e
um tridente –puxando o bloco dos sujos.
A fantasia dos bobos - Era tão bom ser bobo
Belém faz 400 anos – mas, ainda é uma menina
Que fantasia – viver de um passado. A fantasia dos bobos.
Que presente para nossa cidade caberia em nossos bolsos?
A pedrinha da Canção: - Se essa rua, se essa rua fosse minha...

 

ALFREDO GARCIA BRAGANÇA

Outubros em Belém (Mater)

I
Outubros nascem
na hóstia das horas
à flor das promessas,
no sal do suor
da romaria dos gestos.

II
Outubros florescem
na hóstia das palavras,
no suor das promessas,
nas hostes dos gestos,
no sal das horas.

III
Outubros naufragam
no sal do suor
de horas e promessas,
romaria de hóstias
à flor das palavras.

IV
Outubros caminham
na floração das horas,
no suor das hóstias,
no sal das promessas,
à sombra das palavras.

V
Sob o silêncio das horas,
sob as vestes das palavras,
sob o sal do suor
das genuflexões,
outubros vivificam em Belém.

 

 


ROSÂNGELA DARWICH

A cidade tem patas e asas
e quando mergulha
respira debaixo da água.

O céu que amanhece a cidade
é feito de flores, esta
floresta.

Os faróis anoitecem as ruas
e os passantes de todas as épocas
recolhem conjuntamente o azul.

 

 


PAULO NUNES

“Do Pão”
“...Minas é uma fotografia na parede,
mas como dói...”
(Carlos Drummond de Andrade)

“Belém é um pequiá suculento...”
(Dalcídio Jurandir)

Para Maria de Belém Menezes e Maria do Céu De Campos Jordy

És casa, sim e me desvelas
à beira do teu abismo.
És casa, fui e voltei,
Sinal afoito de um reparo no assoalho
(tábua amarela e preta):
fruto da mangueira e o paneiro para pegá-la.

Obturas, casa, sem eira nem beira,
os ontens meus,
Arsenal, sinais da vacaria,
Hospital onde nasci,
o Recreio da Armada
sob auspícios do Paco,
Hoje, fincamos nossa nau no bar do Bacu
para beijar o luar.

Casa combalida, tresoitada,
Malacabada fome, mofina de arquiteturas
banguelas.
Se me convertes no teu rio
eu te assovio, barro sobre sabre,
bairro do Umarizal dos pretos e
nem mais aquela flâmula encarnada
na esquina.
Não à vela de Nossa Senhora das Candeias
na janela da casa de palha
Não ao batuque de Ogum-Jorge, mestre de meu pai,
Lança e poder de me nominar.

Cidade, és o banho de cheiro
de minha avó vinda de longe, o Marajó.
És a “tienda” da outra, a das castanholas.
Cidade: pés, sovela e a agulha
de meu avô, o sapateiro.
Ainda guardas os envelopes de papel de cheiro
do Pará da tia que cruzava tuas esquinas?
A máquina Singer da mãe ainda tramela
seus moldes e bainhas numa rua tua, fantasma.

Casa, se não tens mais castanheiras
em teus brincos já não circundo o igarapé
que fora teu, esconderijo das armas, das Almas,
hoje podre aroma de ricos, salvos pela frescor da Phebo.

Cidade,
casa de meu cômodo,
arraial de meus incômodos,
Belém, o osso buco de roer.

 

 

ARISTÓTELES MIRANDA

Fragmento

Busco teus rastros nos barrentos rios da memória
(restos?)
Num tempo
(sem charme)
De ferro, grades e alarmes.
Um tempo de fel, de sangue e de sombras.

Onde as praças europeias,
os casarões faustosos, as calçadas brancas de lioz,
os tuneis de mangueiras e os luares de antigamente
- as carroças do leiteiro a morcegar nas tardes da infância –
fogueiras , petecas, piões, baladeiras, papagaios que se empinava,
carrossel, carrocinha, cavalinhos,
roda gigante, Festa de Nazaré?

em que cidade se perdeu para sempre a minha cidade
outra foto na parede? De que casa se já não as há?

mesmo assim,
meu coração coagulado de ternura
observa a memória vomitando os iníquos fatos
destrava em desavir
e perplexo ainda te procura

 

 

AIRTON SOUZA

Belém já não é a imagem
que passa nas retinas
na dialética de quadro e parede
é a força de caladas estátuas
na praça da república

é as paredes de outros séculos
a mastigar solidões
durante as chuvas das tardes

Belém é o muro do poeta
& algumas linhas subscritas
de apressados homens e mulheres
enfáticos de atravessar alardes
e o relógio de sina impassível
que rasga ecos na praça

enquanto no cais da baía do guajará
barcos surdos arquitetam
estórias de amor, desamor e a força
de naufrágios
o poeta tira da garganta
o pó da história de outras beléns.

 

VICENTE CECIM

Para alegrar uma rua deserta

e é Assim que habitas uma
Meditação

de Estrelas e Árvores e se apagando ao teu redor


Onde


não todos choram juntos não
Todos riem juntos, e Não se sabe

até Saber:
que uma Lágrima é Meditação de Tudo
E o Riso: Meditação de Tudo


e são esses os Dons


Escuta: O Eco,


o sermos

 

O sorrindo chora O chorando ri

 

ANDREEV VEIGA

dentro da noite terrível

o ar que chega com o voo
pousa na palavra sitiada, tempo

confins do agora abrindo a cidade
para instrumento, excremento assombro que pensa

ser dentro de mim, alimento cego
que roga a distância dentro da manhã

quente e destruída por um sono inviolável
por uma cabeça soluçante

orbitando o ar quente da boca
num dia de janeiro

visão de infernos!

a chuva escorre pela calçada
as luzes que agora são trevas

 

 


ANTONIO MOURA

Após o dilúvio

Pela manhã, após o dilúvio, a lama nas calçadas,
os cacos de trovões no chão, o silêncio branco

do céu ensopado em gaze, as casas de lodo
e as alamedas disparando seus alarmes, os

caranguejos caindo dos ninhos das árvores
e as aves, no solo, querendo refazer o voo

ao peso do barro e das h’eras sobre as asas,
o navio encalhado no topo de um telhado,

os animais estátuas sob a argila crosta à beira
do mar morto de sede bebendo vento nas mãos

em concha da areia, os jardins, Ó, os jardins
desabrochando em lodo, o sangue das crianças

jorrando das torneiras dos palácios e correndo
em sarjetas para os esgotos, o sol lambendo

a pele das cobras que – relâmpago – agora
mudam de casca e pendem entrelaçadas

nos parapeitos dos edifícios entre as flores entre
abrindo as pálpebras de musgo para o arco-íris

refletido nos olhos do rosto sobrevivente
que aspira o ar, ainda úmido, após o dilúvio

 

 

ALFREDO GARCIA BRAGANÇA
Participar da plaquete comemorativa dos 400 anos de Belém, organizada pelo gestor do site Cultura Pará, poeta Vasco Cavalcante, é um privilégio. O poema “Outubros em Belém”, já premiado pela Academia Paraense de Letras no Concurso de Poemas Para Belém com o primeiro lugar, quer traduzir esta religiosidade inata do paraense, sua devoção que mescla arte, festa e religião.

 

 

 


AIRTON SOUSA

Esse poema traz uma dupla homenagem. Primeiro, a homenagem direta a cidade de Belém, um espaço sonhado, como a geografia sublime, dos paraenses que nunca puseram os pés em solo belenense. A segunda homenagem é direcionada ao poeta Paulo Nunes, um homem que mostra a força poética de Belém em muitos de seus versos. Aqui nesse poema é possível ver que esse é um diálogo com um dos poemas de Drummond. Mas, com o peso do contrasenso. Esse é na verdade um poema de lugar. Esse livro/plaquete foi sem sobra de dívidas um dos grandes presentes que Belém recebeu. Porque esse projeto traz a tona diversas vozes poéticas, grande parte de rara dicção, para uma homenagem direta a cidade de Belém. O Site Cultura Pará e o seu idealizador Vasco Cavalcante estão de Parabéns pela grande iniciativa.

 

 

 

 

 

 

ANDREEV VEIGA
“dentro da noite terrível”, é algo que vivo: a cidade como terminal para se construir um novo dia. Um “sono inviolável” que me permite abrigo. Um porto. Um conflito que caminha lado a lado do que me separa e do que me torna anônimo das coisas que faço: um flâneur que caminha com a intensão de experimentar a cidade, como bem disse Baudelaire.
A literatura é a chave para compreender que a linguagem da vida é suscetível a outro hemisfério, o da poesia. E esta se faz presente em vários estilos nesta plaquete que tem como objetivo homenagear Belém. Gerações se cruzam no intuito de criar/recriar a voz que irrompe com a arte.

 

 

 

 

 

ANTONIO MOURA
“Não há como explicar um poema. Ainda mais quando se destina esta inglória tarefa ao próprio autor. Seria como pedir a um pássaro para falar sobre o seu canto. Então, prefiro passar a palavra a Paulo Ferraz, referindo-se a edição em catalão de Após o dilúvio. “Sua poesia, recolhida em Després del diluvi, não nos convida a passear por uma paisagem tropical, antes ela nos arrasta para uma viagem pela linguagem, pois Moura emprega os recursos mais radicais para dar suporte a um torrencial discurso, mesmo que fragmentado ou enigmático, que articula sob o signo das águas um caudaloso pensamento filosófico que abarca mitos e cosmogonias do Ocidente e Oriente. Como resultado, temos uma poesia inventiva e exuberante que, tal como os rios amazônicos em suas cheias, arrasa o que está em sua frente, extravasando suas margens, cuja aparência é a da destruição, mas cuja essência é o renascimento, a fecundação. Sua poesia, ora límpida e ora turva, ora mansa e ora bruta, faz com que novas vidas brotem da lama que sobra de nossa rotina.”

 

 

ARISTOTELES GUILLIOD DE MIRANDA
O poema é uma obra aberta. O que autor quer/quis dizer fica a critério de quem se aventurar no jogo. Mas arriscaria que “Fragmento” é uma anti-ode(?) a Belém, por seus desv(ar)ios; o ritual da memória em busca da (impossível) era de ouro, com direito à compaixão a/final.

 

 

 

 

 

 

 

 

ROSÂNGELA DARWICH
Um poema é quando imagem, ritmo e emoção se disfarçam de palavra. O poema que fiz e que consta da plaquete em homenagem aos 400 anos de Belém se mistura com ela e gosto de compreender todos os versos de todos os autores ali representados como diferentes cantos e espaços da nossa cidade. Tudo se complementa, tudo reflete e comemora.

 

 

 

 

 

PAULO NUNES
Meu poema é ao mesmo tempo uma homenagem a Belém e uma biografia calcinada na minha memória pessoal. Sou leitor da cidade na medida que ela me lê e me constrói. Integrar esta plaquete é uma honra pra mim. Veja, salvo engano, a antologia - homenagem do Cultura Pará reúne um timaço de grandes escritores do Pará. A poesia ganha em volume e densidade quando reúne bons autores, e a Belém quatrocentona é contemplada com a boa literatura. Estamos todos de parabéns com a iluminada ideia de Vasco Cavalcante.

 

 

 

VICENTE CECIM
O que eu quis dizer com esse poema é apenas o que o título dele por si mesmo diz: cintilou em uma esquina real da cidade e foi captado na hora e escrito assim como é.

 

 

 

 

 

 

 

 

JOSETTE LASSANCE
O poema que fiz para Belém tem um cheiro guardado na memória afetiva de quem viveu sua História de florestas, Matintas e fantasmas. Tenho uma fantasia: Que Belém volte a ser doce. Estou feliz e honrada em participar da Plaquete 400 anos sobre a cidade que merece ser amada por todos nós.

 

 

 

 

MARCÍLIO COSTA
O poema nos coloca diante da transitoriedade da vida. Parte de um espaço referencial da cidade, o muro do cemitério soledade, para abordar a algaravia e o silêncio, movimento e quietação, vida e morte dentre outras coisas que o poema guarda em suas camadas. Não como contrários, mas como instancias que movem a máquina do mundo, da vida.
A iniciativa de reunir várias vozes poéticas numa publicação sobre os 400 anos de Belém, propõe uma maneira original de pensar a cidade. ( Poesia é sempre origem). A plaquete “Belém 400 anos” oferece-nos um caleidoscópio cujo movimento das páginas expõe abordagens únicas e múltiplas a partir da diversidade poética que essa publicação pretende. Um mapa, uma cartografia poética sobre Belém.

 

 

 

 

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