Antonio Lemos: A construção de um Mito

Maria Nazaré Sarges

 

A historiadora Maria de Nazaré Sarges revisita o mito de Antonio José de Lemos, pesquisando sua biografia e sua época, além de acompanhar a trajetória pública desse personagem e deixar que os interlocutores descobrissem as evidências de um tempo histórico infinito, lacunar e multifacetado. 

 

trabalho de um historiador é uma empresa difícil, sobretudo quando ele incursiona pela biografia. Para escapar das armadilhas ao revisitar um mito é que fui obrigada a olhar para trás, acompanhar a trajetória pública do personagem Antonio José de Lemos e deixar que os interlocutores descobrissem as evidências de um tempo histórico infinito, lacunar e multifacetado. A relembrança é uma reconstrução orientada pela vida atual, pelo lugar social e pelas necessidades do presente e, neste momento, relampejam insistentemente a história e as memórias de uma cidade que caminha em direção aos seus 400 anos.
Reunidos aqui, rememorando a figura do Intendente Antonio Lemos, especialmente no dia de seu aniversário de nascimento (lá se vão 170 anos) e no ano do centenário de sua morte, parece um ajuste de contas depois de um século de história da república paraense. Trata-se de um ajuste de contas com o tempo e para com o indivíduo que se reencontrou com a vida, no dizer do emocionante discurso proferido pelo escritor paraense Corrêa Pinto, diante do túmulo do Intendente na cidade do Rio de Janeiro, por ocasião do traslado dos restos mortais para a cidade de Belém, no dia 15 de dezembro de 1973: “Com a vida que foi madrasta, nos últimos dias da tua existência, e que agora te é maternal, no reconhecimento de teus méritos, na glorificação de teus feitos, na reabilitação de teu nome”. Não esquecera o escritor de quanto este indivíduo foi maltratado em vida, lembrando que “a multidão que o levou ao triunfo, o levou igualmente ao opróbrio [...] esse povo que o cobriu de ultrajes [...] acabou por enxotá-lo como um réprobo”.
Na cerimônia fúnebre, o escritor assumira o papel de redentor de uma memória que ao longo das décadas fora relembrada apenas como uma alma penada que assombrava as noites escuras de Belém. Havia chegado o momento da cidade se preparar para o erguimento de um panteão em sua memória: Antonio Lemos deixaria de ser “a criatura funesta, como chamavam os seus inimigos”, para ficar eternizado como o administrador da cidade que a memória teima em não esquecer. De certa forma, a morte recupera o seu caráter público, condição que ela teve na Idade Média 

e, neste caso, a relembrança do morto também tinha este sentido.
Todas as honras militares lhe foram prestadas. As bandeiras do Maranhão, do Pará e de Belém cobriam a urna exposta no saguão do aeroporto militar, guardada solenemente pelos soldados da Aeronáutica. Uma multidão que se misturava com as representações religiosas, civis, militares, de sindicatos e de colégios aguardava o cortejo que se realizaria no dia 17 de dezembro. Todos estavam curiosos, afinal quem era aquele homem que todos conheciam pelo “ouvi contar”?
A vinda honrosa dos restos mortais do Intendente para Belém faz-nos lembrar do que teria registrado Humberto de Campos em relação ao espírito vaidoso de Lemos. O traço curioso, segundo Campos, é que o político temia que a sua memória fosse enterrada com o seu corpo. Disfarçava esse temor dizendo: “Eu não dispenso as homenagens a que tenho direito no dia da minha morte. Faço questão de barulho, de descargas militares e, se possível, de estrondo de artilharia. Eu tenho medo de ser enterrado vivo [...]”.
As honras, as homenagens, o barulho se concretizaram, não na ocasião pensada pelo político, mas naquele dia de dezembro de 1973, quando retornaram à cidade os restos mortais envolvidos na forma triunfal de sua memória.
No dia seguinte, o jornal A Província do Pará transcreveu o depoimento de um morador da cidade que, aos 80 anos, teria dito: Eu o conheci pessoalmente e assisti queimarem “A Província” e a casa dele. Não foi o povo que expulsou o senador Antonio Lemos de Belém. Foi uma meia dúzia. O povo mesmo o amava e continua amando, como a gente pode ver [...].
O depoimento, as lembranças, o ritual de glorificação do ilustre morto se espalhará pela cidade e repousará no palácio e, naquela lápide ficará marcado o triunfo de uma memória que lançará fachos de luz sempre que a cidade for ameaçada em sua história. E, são nesses fachos de luz que buscarei a figura do Intendente Lemos para trazê-la à cena, mais uma vez, neste dezembro do ano de 2013.
No ano de 1904, auge da administração lemista, o jornalista Carlos Fernandes torna pública uma biografia do Intendente, em que a figura do homem no seu gestual, no seu modo de vestir, nas tarefas cotidianas, constitui-se em elementos de composição de uma personagem trabalhadora, refinada e exigente: São três horas da madrugada, Antônio Lemos vai principiar a sua faina. Assenta-se à mesa de trabalho, diante da vela acesa e começa a leitura da correspondência da época [...] quando termina essa tarefa exaustiva, já reluz por trás das venezianas um pálido e esquivo raio de sol [...] segue-se o arranjo simples e distinto de sua toilette. Colarinho decotado, um laço preto, horizontal, preso ao botão por um elástico, às vezes à moda do Príncipe de Gales, alindado com um alfinete de pérola ou diamante. Calça de casimira de cor e sobrecasaca negra, em cuja boutonniére há sempre uma flor colhida de fresco. Botinas de pelica também negras, bem polidas, com a sola sempre limpa e o tacão sempre perfeito [...] Agora é somente por a cartola bem anediada e tomar uma de suas artísticas bengalas, saltar para a sua elegante e lustrosa vitória e trotar pelo distrito e ver e examinar o estado das obras municipais, a conservação dos jardins, o asseio das sarjetas, o calçamento das ruas, a segurança da higiene e todo esse mundo de coisas, que fornecem o assunto do Detalhe da Intendência.
Nesse tom de embevecimento pela figura do Intendente, Carlos Fernandes vai construindo a imagem do homem elegante e distinto. Mesmo que registrasse que o seu vestuário fosse simples, não deixou de construir a imagem do homem público de vestes finas e elegantes, afinal botina de pelica, cartola, sobrecasaca e alfinete de pérola ou diamante são apenas alguns símbolos que tornaram Antonio Lemos a marca da distinção e da elegância.
O trajar de Lemos destacado por Fernandes, no entanto, será ridicularizado por outro biógrafo, Valente de Andrade, que considerava o vestuário do Intendente uma postura exibicionista numa cidade de calor escaldante, coisa própria de quem “se sentia bonito, elegante, rico, querido e popular”, como registrou em relação ao oligarca. Contudo, devemos considerar que, no caso de Lemos, que não pertencia a nenhuma família da aristocracia local, era natural que assim se comportasse diante do círculo fechado da alta sociedade paraense. São sinais exteriores necessários a uma sociedade, a qual, por meio das roupas, marcava o seu lugar e mantinha o poder de controlar a ascensão social e política do indivíduo, como observou a historiadora Gilda de Mello e Souza.
É importante observar que apenas “um detalhe” – a roupa – foi apropriado pelos biógrafos para dar significados diferentes, o que nos permite afirmar que tanto para Fernandes como para Andrade o vestuário não passou despercebido da composição da figura pública do Intendente, visto que são meios apropriados pelo indivíduo para imprimir admiração, respeito e, sobretudo, autoridade considerando o cargo ocupado por Antonio Lemos.
Mas este homem vaidoso era cheio de virtudes no dizer de Fernandes. Pai de família exemplar dedicava à esposa e aos filhos um amor incondicional, condição necessária aos homens daquele tempo, afinal o respeito e a honradez estavam intrinsecamente ligadas à devoção ao lar. Valente de Andrade desmistifica, no entanto, a áurea de “bom esposo” quando relata a paixão que o “velho” Intendente devotou a uma jovem professora do interior, ao ponto de pedir a membros da Igreja que desaparecessem com o registro de casamento religioso, o que, na certa, não foi atendido, provocando-lhe um ataque de fúria e de desafio à sociedade, ao exclamar que “no civil eu caso quantas vezes quiser”, segundo os relatos do biógrafo. Essa fama de conquistador de Lemos corria a cidade, como bem enfatizou Dalcídio Jurandir em sua obra Belém do Grão-Pará, ao colocar uma fala do personagem Virgílio que, “vendo Inácia (sua esposa) no auge do fervor lemista, temeu pela fidelidade da mulher, pelo menos por sua reputação”, o que decerto é considerado por Humberto de Campos mais uma das maledicências criadas pelos inimigos políticos.
Era um devoto, tanto que, apesar de ser maçon, recebeu das mãos da Ordem Romana o título de Grão Cavaleiro da Ordo Romanus Princeps Patronorum a Sancto Petro, concedido pelo papa Leão XIII. Valente de Andrade, Ricardo Borges e Carlos Rocque viram com desconfiança esse ato, por considerarem Lemos capaz das mais insuspeitas artimanhas para consolidar a sua autoridade e poder no cenário político paraense. O Intendente era considerado “a encarnação de um czar-mirim, um sátrapa de sobrecasaca e cartola, um sultão fardado de coronel da Guarda Nacional”, segundo Valente de Andrade. Para a Folha do Norte não passava de um “florido Cavour indígena”. Vejam quantas metáforas nessas representações: o sátrapa e o Cavour italiano simbolizam o tiranismo, o expansionismo e a dominação.


De minha parte, também fico a me perguntar: como um indivíduo que muito antes de ser Intendente de Belém havia se envolvido numa querela com o padre Mâncio acerca dos jogos de loteria poderia receber uma honraria tão importante? Lemos os considerava imorais, enquanto o padre os defendia por motivos humanitários, afinal o dinheiro serviria para libertar os escravos, promover obras pias e ajudar a instrução pública. O Intendente se envolveu ainda em outra briga com o dito padre em torno de um projeto de construção de um teatro no Largo das Mercês, defendido por membros do Partido Liberal. Tal projeto colocaria abaixo a Igreja e parte do convento dos mercedários. E, por último, houve a famosa briga com o clero por não concordar com a anulação do seu casamento religioso. São apenas reflexões que nos convidam ao debate, afinal, como diria o historiador Benito Schmidt: “não é fácil a tarefa de contar uma vida, seja com luz ou papel, realidade ou imaginação”. 

Cada relato traz a marca do indivíduo, então continuemos a capturar as impressões de homens que viveram a contemporaneidade de Lemos e daqueles que foram recolher em tempos vividos os fragmentos das memórias lemistas.
Entre 1915 e 1919, Humberto de Campos, jornalista que havia trabalhado na A Província do Pará, escreveu um livro intitulado Carvalhos e Roseiras, enfocando as mais ilustres personalidades brasileiras e, dentre elas, obviamente, estava a figura de Antonio Lemos.
O escritor reconhecia que tudo o que haviam escrito sobre Lemos era com desmesurada paixão: ou o amavam ou o odiavam, e aqueles que lhes teciam os maiores louvores, geralmente, eram pessoas que o haviam servido servilmente. Por essa razão estava escrevendo após a morte do Intendente. Distanciando-se do indivíduo e do tempo, propôs-se a descrever a vida pública daquele “cuja corte era proporcionalmente, a corte de um príncipe italiano da Renascença”.
O texto de Campos é mesclado de alegorias. Figuras da antiguidade e da renascença italiana são apropriadas para retratar o indivíduo e o político biografado. Considera o Intendente a reencarnação de um Lourenço de Médici, visto que “como um homem sem uma cultura refinada poderia ter um espírito acabadamente aristocrático, prezando o luxo, amando a magnificência, apreciando as artes, protegendo as letras em uma sociedade burguesa e mercantilizada, sem o auxílio de uma cultura que lhe sugerisse tais sentimentos?”. Somente uma explicação considerava plausível, a crença na metempsicose. Como “os homens se repetem nos homens, não seria difícil ver em Antonio Lemos a inoportuna repetição de um Médici ou do Rei Sol, desvalorizada, apenas, no homem e na obra, pelo evidente prosaísmo da época e pela triste vulgaridade do cenário”, enfatizava o escritor.
Antonio Lemos seria a concepção da majestade e da beleza, pena que o cenário fosse uma pequena cidade na longínqua Amazônia, o que nos leva a afirmar que o literato valorizava padrões europeus de civilização. Preocupou-se o escritor em detalhar as festas promovidas pelo Intendente consideradas elegantes e civilizadas. Até mesmo uma simples regata na baía do Guajará mostrava soberba e magnificência desse. Eram regatas dignas das dos Doges de Veneza, no dizer de um memorialista.
O que dizer então do carnaval? Mesmo sendo uma festa popular, a Intendência derramava conto de réis, como aconteceu em uma em que foram construídos camarotes para a elite e arquibancadas para o povo. Enfatizava que até mesmo Calígula construindo uma Via Ápia sobre as ondas e César construindo uma suntuosa residência não escandalizavam tanto a sociedade romana como Antonio Lemos com os seus gastos nababescos na promoção de festas. Murilo Menezes relembra a suntuosidade das festas de carnaval, comparando-as aos carnavais de Nice, justificando que isso era possível porque a cidade e o seu comércio nadava em ouro.
Mas, o Intendente era também um apreciador das artes, como Augusto que apreciava vasos famosos, um Francisco I que amava as esculturas, um Lourenço de Médici que adorava os pintores. Bastava olhar o seu gabinete na intendência e a sua residência que mais parecia um museu de Arte. Machado Coelho registra que “a cidade inteira era um autêntico museu e as galerias de pintura pertencentes a amadores, ao Estado e à Prefeitura municipal ostentavam telas dos mais renomados pintores nacionais e estrangeiros”. Eram objetos do mais apurado bom gosto, sobretudo, da França, da Itália, da Inglaterra e da Holanda.
Voltando a Humberto de Campos, o escritor não podia deixar de observar que aquele homem que aparecia, todas as manhãs, com sobrecasaca irrepreensível, gardênia no peito, bengala de marfim incrustada de ouro e de pedras, não deixava de lembrar a figura de um grão-duque educado em Paris. Assim, o Intendente era pintado em tons coloridos, vibrantes e refinados por um biógrafo que fez questão de registrar que escrevia sem a paixão daqueles que lhe emprestaram extravagantes qualidades de demônio ou de deus. Mais grandiosa do que essas palavras de Humberto de Campos é impossível encontrar outras com tanto vigor na busca dos rastros de uma vida tensa, ambígua, que insiste na diferença e que coloca ao historiador o desafio de dar a palavra a todos os protagonistas dessa história.
A figura de Lemos precisava ser constantemente revigorada, portanto, nada mais oportuno do que comemorar a data de nascimento do ilustre político. Com a finalidade de comemorar o aniversário do Intendente, foram criados clubes de honra como o União e Perseverança (o qual criou até uma folha dedicada a esse dia – o 17 de Dezembro), União e Firmeza, a Liga Política Senador Lemos, os quais eram apoiados em suas programações do dia 17 de dezembro pela A Província do Pará. Eram agremiações cujo fim específico era transformar a data numa verdadeira expressão de prestígio e poder do senador. O próprio Lemos reforçava essa imagem, tanto que em seu Relatório de 1907 transcreveu uma nota de jornal que registrava que: O dia 17 de dezembro tornou-se, com efeito, no Estado do Pará um dia de regozijo geral, um feriado popular, em que todos, em um conceito unânime, procuram patentear a sua gratidão a este cidadão.
A notícia procurava dar a dimensão dos festejos que começavam de madrugada com o toque da Alvorada, com os espocar das girândolas no ar e com as fanfarras que animavam a presença dos que se concentravam em frente à sua residência. Em se guida, era celebrada uma missa em louvor à vida, cerimônia da qual deveriam participar todos aqueles que quisessem cair ou permanecer nas boas graças do aniversariante, segundo a acidez de Valente de Andrade. Posteriormente, o Intendente dirigia-se à sua casa para ler as mensagens enviadas pelos amigos e correligionários, eram cartas, cartões e telegramas que vinham de todas as paragens; era a ocasião de conferir os presentes que poderia ser desde “um simples bom-bocado que se desmancha na boca”, segundo Romeu Mariz, até uma medalha de ouro, uma valiosa estatueta ou uma carruagem de luxo. Os presentes eram tão valiosos que chegavam a ficar expostos em lojas da cidade, como ocorreu no aniversário do ano de 1902: No Palais Royal está em exposição um presente oferecido ao senador Antonio Lemos, pelos empregados da Recebedoria, no dia do seu aniversário natalício. Na Casa Krause & Irmãos também se acha em exposição outro presente [...].

Esse periódico, O Notícias, costumava sempre reproduzir os mínimos detalhes da festa, sobretudo a programação estabelecida pelos clubes como a executada pelo Clube União e Perseverança, no Instituto Carlos Gomes, que começava com uma “Marcha da ópera Aída, executada pela banda do Corpo de Bombeiros municipais, sob a direção do professor Cincinato de Souza”, terminando com o Paso doble “La Banda Trompetas”, depois do eloquente discurso proferido por Paulino de Brito.
No aniversário do ano de 1908, ainda é possível perceber, mesmo que timidamente, a reunião de apoiadores em torno da data. O próprio Intendente assim descreveu em seu Relatório anual: No Hotel Paris reuniram-se ontem vários amigos do sr. Senador Antonio Lemos, em almoço íntimo para comemorar a data de seu aniversário natalício[...] Foi servido o seguinte menu: Hors d’oeuvre, poisson; Entrée: grillé, legumes; dessert: fruit, fromages; vins, champagnes; eaux minérales, café et liqueurs.
Mesmo que o número de amigos fosse reduzido, ainda permaneceria o refinamento na Comemoração, como podemos perceber no cardápio oferecido pela ocasião, afinal o menu demonstrava requinte e apreciação da língua de Victor Hugo.
O dia 17 de dezembro era o dia estabelecido para o beija-mão, uma prática que faz-nos lembrar de Pedro II, que apreciava o ritual dos sábados na Quinta da Boa Vista. No aniversário de Lemos não era diferente, afinal essa prática monarquista era reproduzida por aqueles que faziam parte de seu círculo político ou de amizade, ou que desejavam integrá-lo e, dessa forma, procuravam mostrar admiração, subserviência por meio de reverências, de poesias, de notas de júbilo e louvor pela data. Enfim era um dia de louvações “ao venerando chefe”, “ao grande estadista”, “ao proeminente senador”, ao “benemérito”, chegando-se muitas vezes a compará-lo a Napoleão “com o peito inexpugnável diante das pirâmides do Egito”. Os áulicos não cansaram de homenageá-lo e Lemos sabia muito bem que essas comemorações significavam o momento de reafirmar a sua autoridade, ao mesmo tempo em que servia para reforçar a “política do favor”, prática que espelhava a política central e tão bem aproveitada pelos amigos e parentes que desejassem obter concessões para a exploração de serviços urbanos ou para a construção de obras.
Os contemporâneos procuraram, de uma forma ou de outra, manter esse vínculo com o passado lemista, aprisionar a sua memória, estabelecer lugares da memória, mesmo que os acontecimentos violentos de 1912 tivessem marcado as lembranças da cidade. Portanto, relembrar as festas de aniversário era uma forma de buscar a permanência do passado pelos guardiões da memória.
Passados alguns anos após a expulsão de Antonio Lemos da cidade, diante da crise econômica que havia atingido, sobretudo, os negócios públicos, começaram a surgir os primeiros relampejos de uma memória saudosista, que foram se tornando cada vez mais fortes e presentes ao passar das décadas. E, um dos indícios eram as reclamações contra o abandono e a sujeira da cidade, como bem registrou Franciane Lacerda em um dos seus textos, ao relembrar as imagens da cidade de 1916, veiculadas na imprensa destacando a contundente frase “Belém era porca como Constantinopla”.
Em 1924, A Província do Pará reavivou a memória do seu fundador com um artigo “Senador Antonio Lemos: seu dia natalício”, um texto laudatório que procurava retirar das cinzas a imagem do administrador chamuscada pelo fogo dos incêndios de 1912. Em 1931, o jornalista Romeu Mariz, retomando as imagens do aniversário do Intendente, comparava os presentes recebidos no dia do aniversário a ex-votos, como se este homem pudesse ser comparado à veneração dos santos.
Os vestígios do senador intendente não se apagaram e, em 1940, Raul Azevedo publicou, em A Província do Pará, um longo artigo retratando a administração lemista e ratificando o caráter bondoso do administrador, ao lembrar o seu esforço junto a Lauro Sodré para trazer o maestro Carlos Gomes para Belém, embora este já estivesse bastante enfermo. Em 1943, é a vez do Instituto Histórico e Geográfico do Pará rememorar o político, ao promover uma sessão em homenagem ao centenário de nascimento de Lemos. Romeu Mariz, mais uma vez, foi o escolhido para fazer a saudação ao homenageado. Enfatizando os traços pujantes do homem, do político, do administrador e do jornalista, procurou colocar essas lembranças num lugar de permanência da memória de um determinado grupo.
A partir da década de 1960, uma série de obras, embora algumas não tivessem um caráter propriamente biográfico, privilegiou em seu enfoque a figura do grande urbanizador da cidade, numa espécie de salvamento de uma memória ameaçada pelo esquecimento. Constituiu-se num esforço da construção de uma memória coletiva. Basta observar que em 1963 o escritor Leandro Tocantins, sob a forma de um guia histórico, escreveu Santa Maria de Belém do Grão-Pará. Segundo o autor, o propósito não era descrever a figura do político que a oposição teimava em afirmar que este não sabia ter adversários, pois, mesmo que assim fosse, as suas obras e o seu desempenho na Municipalidade “o redimiriam dos erros ou dos excessos de mandonismo”. A memória de Mariz lembra um pouco aquela que biografou Humberto de Campos, ao comparar Intendente às grandes figuras da história universal, além de conside
Em 1968 vem a público a obra de Corrêa Pinto, intitulada Belém: Imagens e Evocações. No capítulo dedicado à “Belém da Belle Époque”, o escritor faz uma apologia do tempo lemista, considerando que Lemos foi um governante de todas as classes ao procurar nivelar a todos num só ideal: o engrandecimento da cidade. Assim como Tocantins, o escritor Corrêa Pinto tentou redimi-lo de suas ações caudilhistas, pois: Na realidade, atribuíram-lhe atos que nunca praticou, frases que jamais proferiu, vinganças que nem por sombra concebeu. E mesmo que houvesse cometido um sem número de erros, como político, o que realizou em Belém, como administrador, dava-lhe direito ao amor público irrestrito e perene.
Essa memória abominável não era a que deveria ser cultuada, é o indizível que os seus guardiões procuram tornar subterrânea, é como se todas as ações condenáveis pudessem ser enterradas debaixo das grandes realizações do esteta, do homem público que protegia as artes e embelezava a cidade. No jogo da memória, há um tempo que deve ser conservado e consagrado. Como diz Marina Maluf, a memória é sagrada e a história, profana, dessacralizadora dos mitos, mas , nesse jogo enquadramento da memória, a figura de Lemos sobressai como o elemento redentor de um passado de glória.
O ano de 1973 marca uma série de acontecimentos nesse circuito de re avivação da memória lemista. Nesse ano do traslado dos restos mortais do Intendente para Belém, o jornalista Carlos Rocque publicou o livro Antonio Lemos e sua Época, obra encomendada pelo prefeito Nélio Lobato, para fazer parte dos eventos de retorno das cinzas de Antonio Lemos. Rocque propôs-se a fazer uma “análise fria” para que “o leitor sinta com mais crueza ou mais realismo”. Compartilhando com autores que escreveram no início do século XX, ele deu ênfase aos embates político-partidários e às vozes dos biógrafos lemistas, desprezando um olhar social 

que pudesse trazer à cena os indivíduos anônimos, os trabalhadores da cidade, a gente simples que circulava nas ruas, atores dessa história construída em fragmentos.
O autor, ao mesmo tempo em que tenta justificar a neutralidade de sua análise, enfatiza que não saberia dizer em que Lemos foi mais perfeito, visto que: Como político, criou a maior oligarquia que já houve no Pará, enfrentando os mais respeitáveis nomes do republicanismo local; como jornalista, fez de “A Província do Pará” o melhor jornal de todo o Norte, e sem qualquer exagero, um dos maiores do Brasil; como administrador transformou a pequena Belém em uma das mais modernas metrópoles do país.
Trata-se de uma análise fragmentada muito comum nos escritos biográficos de então, lembrando que Carlos Fernandes, um dos primeiros biógrafos de Lemos, também havia pensado a sua obra compartimentando as ações do Intendente, no homem, no político, no jornalista e no administrador. Aliás, esta mesma compreensão tinha Romeu Mariz, como se o indivíduo a cada momento tivesse que desempenhar um papel que lhe era atribuído.
É sabido que o contexto econômico da época favoreceu a execução de um audacioso projeto de urbanização da cidade, assim como a qualificada equipe de jornalista de A Província do Pará deu-lhe condições para tornar-se chefe de um dos melhores jornais do país, assim como a própria conjuntura política lhe favorecera a sua ascensão política.
Isto não quer dizer que não possamos reconhecer a competência do urbanizador e o seu compromisso com a cidade que lhe acolhera, tanto que é possível afirmar que as obras de urbanização sobreviveram ao seu desaparecimento, funcionando como testemunhos de um passado que deverá ser sempre lembrado.
Nesse mesmo ano de 1973, dedicado ao sesquicentenário da Adesão do Pará à Independência do Brasil, o historiador Ernesto Cruz, com o patrocínio da Universidade Federal do Pará, publicou um livro em dois volumes, intitulado História de Belém, no qual dedica um dos capítulos a Antonio Lemos. Nesta obra, o historiador fez questão de ressaltar apenas as obras urbanísticas realizadas na cidade que se transformou em “um ninho de cultura e de beleza [...], por isso não era [...] possível calar, a admiração profunda e respeitosa pelo esteta que soube fazer de uma cidade despretensiosa, a mais bela capital do Norte”.
Como herdeiro de uma tradição positivista, Ernesto Cruz procurou inserir a cidade de Belém no modelo de civilização, a partir da compreensão dos fatos, e ao consolidar a imagem de Lemos como “um verdadeiro urbanista, um artista primoroso, plasmando com o cinzel de sua imaginação a cidade que amava com o enternecimento de um poeta”.
Em 1978 surge uma publicação intitulada Antônio José de Lemos, o plasmador
de Belém: em defesa de um nome, de autoria de Augusto Meira Filho, engenheiro, político, historiador, em resposta ao ataque à figura do Intendente, feito por Emanuel Sodré em uma entrevista concedida a Carlos Rocque. Sodré teve a pachorra de chamar o ilustre Intendente de “jardineiro”.
Em desagravo à memória de Antonio Lemos, o vereador Meira Filho fez mais: utilizou a tribuna da Câmara Municipal e proferiu um contundente discurso em resposta “ao terrível e grande veneno de intrigas e ódios” destilado pelo filho de Lauro Sodré. Lembrava o orador que a memória de Lemos estava sendo deturpada da mesma maneira que enxovalharam a memória dos cabanos, que por muito tempo foram considerados sanguinários, bárbaros, por isso, era preciso combater esta associação da imagem do político a da destruição. Afinal, dizia Meira em tom pedagógico, que era preciso que a mocidade paraense “tomasse conhecimento de exemplos do passado, conhecer a vida política do Estado, nos albores do século para dignificá-la”. Ainda ressaltava que esta era uma vida de um homem com “um cabedal de inteligência insuperável”, que conseguiu superar até mesmo a sua própria condição humana. Enfatizava que os seus “filhos iriam tomar conhecimento e reconhecer no maranhense de nascimento o notável paraense de coração”. Percebe-ae que há uma tensão na memória do “político de fora”.
Osvaldo Orico registra que Lauro Sodré levava vantagem sobre Lemos, por ser “paraense nato, caboclo da terra – à qual estava unido por vínculos de sangue e sentimento”. Portanto, esse entrelaçamento dos lugares de Lemos reflete uma necessidade de enraizar não só o indivíduo, mas também a sua própria memória. No lugar do Maranhão, Antonio Lemos teria a sua memória assentada definitivamente no solo paraense.
Todas as obras conhecidas até a década de 1970 procuraram ligar a figura de Antonio Lemos ao de o maior urbanizador da cidade. Os guardiões da memória não o vincularam a seu poder de mando político. Ele se con stituiu no mais competente urbanizador da cidade, e suas obras devem sempre ser relembradas, pois é este o passado que continua dando à cidade o estatuto de civilização.
Há um intenso trabalho de enquadramento dessa memória e ela fez-se necessária para firmar um passado cuja imagem deveria manter os referenciais do grupo social que ajudou a construir o mito da belle époque.
Ainda penso que a recuperação do tempo de Lemos ainda é necessária, é a utopia, é “o sonho que nós ainda podemos sonhar”, como escreveu um anônimo, é a esperança que paira sobre a cidade e que busca preencher uma lacuna que ainda perdura. Ao longo deste texto, procurei apresentar os fragmentos das memórias do idealizador da belle époque, percorrer os rastros de um mito e, como os mitos não podem ser simplesmente destruídos, aqui está a história de um deles, talvez o mais poderoso, o mais revisitado, o mais emblemático da história republicana paraense.

 


Maria de Nazaré Sarges possui graduação em História pela Universidade Federal do Pará (1968), mestrado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1990),doutorado em História pela Universidade Estadual de Campinas (1998) e pós-doutorado pela Universitat de Barcelona/ES (2011). Atualmente é professora associada da Universidade Federal do Pará. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: Belém, cidade, Amazônia, migrações, belle époque. (Texto informado pelo autor)

 

 

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